Os RPGs de mesa, mais cedo ou mais tarde, acabam atraindo os nerds para o seu universo. Dungeons and Dragons é, provavelmente, um dos, se não o módulo de jogo mais popular desse estilo. O jogo já passou por cinco revisões completas, com uma sexta a caminho, além de diversas aventuras criadas pelos jogadores, oferecendo horas de conteúdo para explorar. A isso se somam dezenas de campanhas trazidas oficialmente pela Wizards of the Coast, atual detentora da marca.
O conteúdo disponível para Dungeons and Dragons é, para todos os efeitos, praticamente infinito. Uma mesma aventura nunca será igual para dois grupos distintos de aventureiros. E, certamente, essas possibilidades de repetição diminuem à medida que mais jogadores experimentam a mesma campanha (como chamamos as aventuras). A imaginação é o único limite, tanto dentro quanto fora do jogo. Prova disso é que o jogo do ano de 2023, Baldur’s Gate 3, foi inspirado nas histórias de Dungeons and Dragons e trazido à vida pela Larian Studios.
Além disso, esse universo mágico e gigantesco também conta com um filme, Dungeons and Dragons: Honra Entre Rebeldes, que foi um sucesso de crítica e um relativo sucesso de bilheteria. Como podem ver, muito se cria a partir desse universo, ou como a Wizards of the Coast o chama: módulos de jogo. Contudo, vale mencionar que, devido à variedade de aventuras e situações disponíveis, muitos podem ficar confusos sobre por onde começar ou até mesmo se vão se divertir. Por isso, este jogador que vos fala trouxe algumas dicas para ajudar em sua primeira – ou primeiras – aventuras.
1 – O verdadeiro Dungeons and Dragons são os amigos que fazemos no caminho

Durante uma boa sessão de RPG, o que realmente importa não são personagens focados em combos absurdos ou estratégias para tornar todos os combates triviais. O que um bom grupo precisa é de bons amigos e uma dinâmica divertida, não apenas entre os personagens, mas também entre os jogadores. Dungeons and Dragons (ou qualquer outro RPG de mesa) é uma excelente oportunidade para fortalecer amizades, proporcionando momentos engraçados e situações tensas, onde risadas e adrenalina serão compartilhadas.
Reúna-se com alguns amigos e conversem sobre a ideia de jogar RPG. Não é necessário começar com uma campanha longa e elaborada logo de início. Experimente um one-shot, que é uma aventura curta planejada para ser concluída em uma única sessão. É uma ótima maneira de experimentar o RPG de mesa e decidir, sem compromisso, se o hobby é algo que vale a pena dedicar seu tempo.
E, acima de tudo, lembre-se: é apenas um jogo. Divirtam-se! Afinal, o que seria de uma boa jogatina sem diversão?
2 – Escolha uma mesa própria para novos jogadores

Montar seu grupo de amigos é apenas o primeiro passo em Dungeons and Dragons. O próximo desafio é escolher a aventura ideal para começar. Com uma enorme variedade de módulos, histórias e ambientações disponíveis, essa decisão pode parecer intimidadora para novos jogadores. A pergunta “Por onde eu devo começar?” pode surgir como um grande obstáculo, mas estou aqui para ajudar a responder essa dúvida.
Existem várias aventuras criadas especialmente para iniciantes, desde campanhas solo (sim, é possível jogar Dungeons and Dragons sozinho, embora não seja a experiência mais recomendada) até histórias ambientadas em mundos incríveis, repletas de narrativas cativantes.
De recomendação, eu posso entregar estas duas em específico:
- A mina perdida de Phandelver
“A Mina Perdida de Phandelver”, disponível no Starter Set de Dungeons and Dragons, é uma excelente porta de entrada. Com apenas quatro capítulos, esta aventura foi projetada para levar o grupo até o nível 5 (de um total de 20), enquanto ensina os fundamentos essenciais do jogo, como combates, exploração, narrativa, interações com NPCs e muito mais. Os livros que acompanham o Starter Set explicam cada passo com clareza, tornando esta experiência acessível e envolvente para novatos.
A aventura começa com uma tarefa simples e clássica: escoltar uma caravana. No entanto, rapidamente os jogadores se veem imersos em mistérios intrigantes, combates emocionantes e exploração de tirar o fôlego. “A Mina Perdida de Phandelver” é, sem dúvida, a introdução definitiva ao universo de Dungeons and Dragons para você e seus amigos.
- Dragão do pico gélido

Outra excelente opção para novatos em Dungeons and Dragons é a “Dragon of Icespire Peak” (Dragão do Pico Gélido). Esta aventura acompanha o Kit Essencial de Jogo (Essentials Kit) e oferece uma experiência mais flexível do que A Mina Perdida de Phandelver. Ao retirar parte do peso das decisões do Mestre, Dragon of Icespire Peak permite que os jogadores ditem o ritmo da campanha, tornando a narrativa mais colaborativa. Essa dinâmica proporciona uma troca divertida entre o Mestre e os jogadores, resultando em uma experiência única e memorável para o grupo.
Uma das grandes vantagens dessa aventura é sua estrutura não linear. As missões podem ser realizadas na ordem que o grupo desejar, incentivando a exploração e permitindo que os jogadores escolham como avançar na história. Esse nível de liberdade é especialmente atrativo para quem gosta de sentir que tem controle sobre seu destino dentro do jogo.
O clímax inevitável — o combate contra o dragão — é um dos destaques da campanha. O desafio é projetado para ser emocionante e significativo, mas cuidadosamente ajustado para garantir que jogadores iniciantes possam enfrentá-lo de maneira justa e recompensadora.
Se você busca uma aventura introdutória que combina flexibilidade, liberdade narrativa e desafios épicos, Dragon of Icespire Peak é uma escolha perfeita para o seu grupo!
3 – Sessão 0: O ponto de partida de toda boa aventura

Escolhido o grupo de amigos e o cenário onde a aventura acontecerá, é hora de iniciar a Sessão 0. Em Dungeons and Dragons (ou outros RPGs de mesa), sessões correspondem às jogatinas, que podem somar dezenas de encontros dependendo da disponibilidade do grupo. A Sessão 0, em particular, é essencial para alinhar expectativas e definir os principais aspectos da campanha.
Nesta etapa, decide-se como será a dinâmica da jogatina. Isso inclui definir como ocorrerão os combates e o sistema de evolução dos personagens. Muitos mestres, por exemplo, preferem substituir o clássico grind de XP por um sistema baseado em objetivos narrativos, onde os personagens sobem de nível ao completar marcos importantes da história.
Além das questões técnicas e regras gerais, a Sessão 0 é o momento ideal para os jogadores criarem seus personagens em conjunto. Esse processo colaborativo ajuda a construir uma dinâmica equilibrada entre o grupo, tanto no aspecto de roleplay quanto na organização estratégica dos combates. Um grupo bem balanceado — com papéis claramente definidos como tanque, suporte e dano — tende a enfrentar menos dificuldades ao longo da campanha.
Durante essa sessão, é interessante que os jogadores compartilhem ideias para as personalidades, histórias de fundo e motivações de seus personagens. O mestre também deve aproveitar para apresentar um panorama geral da campanha, explicando o tom da aventura, o que os jogadores podem esperar, e algumas pistas iniciais, sem, é claro, entregar spoilers que possam estragar as surpresas da jornada.
Em termos de duração, a Sessão 0 costuma ser mais curta que as demais, geralmente cerca de duas horas, o suficiente para que todos saiam preparados para a primeira sessão oficial. Isso é importante, considerando que as sessões regulares de Dungeons and Dragons podem durar entre 2 e 4 horas ou mais, dependendo do grupo e do entusiasmo.
Aproveite esse momento para garantir que todos estejam na mesma página e para criar as bases de uma experiência divertida e memorável. Afinal, o coração do RPG de mesa é viver a história juntos!
4 – Uma boa sessão vem do mestre e dos jogadores

Chegou a hora de a aventura começar. Todo início de mesa tende a ser um pouco engessado, com certa dificuldade para sair dos trilhos. Afinal, é um momento introdutório em que todos precisam “seguir o roteiro”. No entanto, isso não significa que as aventuras de Dungeons and Dragons devam ser chatas ou monótonas. A melhor parte de um RPG de mesa é que, diferentemente de um jogo eletrônico ao qual estamos acostumados, a história, a narrativa e as situações não dependem apenas do “produtor” do jogo — nesse caso, o mestre da mesa. Os jogadores são uma parte vital e essencial de tudo o que acontecerá.
Antes de cada sessão, o mestre deve se preparar para guiar os jogadores no que está por vir. Contudo, isso não significa que ele deva impedir os jogadores de, dentro das possibilidades do jogo, fazerem o que desejarem. A liberdade é o coração pulsante de Dungeons and Dragons, e interações, combates e situações devem surgir de ambos os lados da mesa. Se você for participar como jogador, questione sempre o mestre sobre o que é permitido: interagir com alguém, manipular o cenário ou realizar ações específicas. A ponderação dos jogadores é essencial para que a mesa seja divertida para todos.
Para o mestre, é importante refletir até onde os jogadores podem ir nesses mesmos pontos. Você provavelmente não vai querer que, já na primeira sessão, os personagens passem de aventureiros comuns a procurados interdimensionalmente por provocarem um demônio furioso ou cometerem um crime em plena luz do dia, no meio da cidade. Ou talvez você queira! Essa é a magia de Dungeons and Dragons. Tudo é possível, e sua imaginação é o limite. Divirtam-se juntos e lembrem-se: a mesa é uma via de mão dupla. Se ambos os lados não estão se divertindo, algo está errado.
5 – Diversão deve ser o foco das mesas

Não serei eu quem ditará ao leitor como se divertir em uma mesa de RPG. Afinal, cada um tem sua própria noção do que é diversão, seja por meio de comentários pontuais, diálogos, combates ou uma longa lista de situações e momentos únicos. No entanto, lembre-se de que, ao fim de tudo, RPG de mesa é um jogo, e todo jogo tem como objetivo principal uma coisa: entreter e divertir seus participantes. Certifiquem-se de que a mesa seja agradável para todos, desde o mestre até o último jogador.
Talvez nem todos estejam na mesma sintonia no dia da sessão, por diversos fatores que podem surgir: estresse pessoal, um acontecimento que deixou alguém irritado dentro ou fora do jogo — nunca se sabe. Porém, uma situação ruim não deve impedir você de buscar diversão. A magia de Dungeons & Dragons é que ela se apresenta de diversas formas e varia para cada grupo. Um combate bem elaborado, uma interação que revele os grandes segredos da trama, ou até uma situação inesperada causada por uma ação de um jogador. Tudo é possível.
Prever o que acontecerá em uma mesa é essencialmente impossível, e é justamente isso que torna o jogo tão divertido. Sempre esperem o inesperado e permitam-se aproveitar as surpresas que surgirem. Para uma primeira aventura, minha recomendação é ter um grupo bem equilibrado em termos de classes — como se estivesse montando uma equipe em um videogame, por exemplo. Tentem interagir com o maior número possível de personagens, explorem a cidade, “vivam” aquele mundo, e ele certamente recompensará a curiosidade do grupo.
Para aqueles que não podem ou não conseguem se reunir presencialmente, existem várias formas de jogar uma mesa online sem perder a imersão. Uma chamada de voz via Discord para comunicação do grupo, combinada com uma plataforma como o Roll20, resolve grande parte das necessidades. Claro, existem outras ferramentas disponíveis, mas essas duas já são mais que suficientes para começar.
E se forem jogar RPG, compartilhem suas experiências. Sempre há alguém interessado em participar de uma mesa, mas que não sabe por onde começar ou não tem certeza de que vai achar divertido. Inspirar essas pessoas pode ser tão recompensador quanto o jogo em si.






