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Resenha | BIG BABY – Charles Burns

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Mais uma das obras de Charles Burns, autor de “Black Hole” chega ao Brasil em uma edição caprichadíssima publicada pela editora Dark Side, o clássico BIG BABY. E se eu fosse obrigado a definir esse encadernado de quatro histórias originalmente publicadas entre 1982 e 1992 com uma palavra, ela definitivamente seria: “estranho”.

Mas como diria Jack o Estripador, vamos por partes. Charles Burns é um cartunista e ilustrador americano conhecido pela sua arte nada convencional. Sua carreira nos quadrinhos começou a ganhar relevância em trabalhos publicados na icônica revista RAW, editada por ninguém menos que Art Spiegelman (autor de MAUS) e Fraçoise Mouly (A RAW foi um verdadeiro bastião para os quadrinhos alternativos dos EUA entre os anos de 1980 e 1991).

O encadernado da Dark Side é curto, em aproximadamente 106 páginas compila as histórias publicadas na RAW: Big Baby, Maldição dos Toupeiras, Peste Juvenil e Clube de Sangue. Após isso traz alguns extras como capas originais, uma curta história da concepção de Big Baby e uma biografia resumida do autor.

Em BIG BABY, a arte em alto contraste (preto e branco)  é perturbadora. O desenho que em uma primeira leitura aparenta ser simples, quando olhado mais cuidadosamente assume ares mais complexos, com elementos sutilmente inseridos ao longo das páginas que compõem uma atmosfera carregada e estranhamente amedrontadora, é como se algo de sinistro estivesse à espreita o tempo inteiro.

Aqui vamos acompanhar as histórias de Tony Delmoto, apelidado de Big Baby. Ele é aficionado por quadrinhos e filmes de terror, e na sua cabeça infantil, não consegue distinguir entre a ficção e a realidade. E essa confusão é passada para o leitor com uma precisão impressionante, não raro você passa a encarar os acontecimentos sinistros como um evento real na vida de Big Baby.

O primeiro conto é curtíssimo, porém suas duas páginas já são mais do que o suficiente para definir o clima de estranheza que vai acompanhar o leitor ao longo de toda a HQ. Logo nas primeiras páginas da “Maldição dos Toupeiras “comecei a imaginar que o enredo seria raso e previsível, até que uma reviravolta acontece e tudo o que construí no meu imaginário foi pelos ares e rapidamente percebi que Charles Burns não fez sucesso por acaso.

Nessa história, o vizinho de Big Baby (um homem desprezível e violento) está construindo uma piscina. Enquanto supervisiona as obras no seu quintal, parece estar vigiando constantemente a sua esposa, que submissa ao marido abusivo e alcoólatra, sofre silenciosamente com os ciúmes descontrolados do imbecil.

Após ler uma revista em quadrinhos, Big Baby se convence de que há algo de errado com o buraco no quintal do vizinho, e decide escapulir de casa na calada da noite para investigar. E é aí que as coisas vão assumindo ares cada vez mais bizarros, e ele acaba se envolvendo em acontecimentos reais e imaginários que vão desafiar a sua sanidade.

Em “Peste Juvenil” e “Clube de Sangue” vamos acompanhar histórias razoavelmente mais complexas, com a abordagem de uma das premissas que viria a ser a base central de “Black Hole”, publicado em meados de 2017. E meus amigos, apesar de curtos, os quatro contos compilados pela Dark Side são excelentes. A narrativa, tanto gráfica quanto textual são muito bem desenvolvidas, e a leitura delas vai ser constantemente acompanhada por uma sensação meio claustrofóbica, criada principalmente pela arte nada convencional do autor.

Se você já leu Black Hole, essa definitivamente é uma HQ indispensável para a sua coleção, e se ainda não conhece o trabalho de Charles Burns, está aqui uma excelente oportunidade.

Publicado em 7 de maio de 2019 às 22:37h.
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