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Resenha | Fogo e Sangue – George R. R. Martin

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O episódio final de Game of Thrones foi ao ar no último domingo (19/05), e a despeito dos incontáveis debates, teorias, e um final que dividiu as opiniões do público em geral, o que parece ficar para os fãs da série é o vazio deixado por uma das mais espetaculares produções para a TV de todos os tempos.

A série da HBO quebrou inúmeros recordes e conquistou impiedosamente o coração de um publico diverso, desde pessoas mal saídas da pré-adolescência, até nossos pais e avós acompanharam assiduamente as 8 temporadas. Poderíamos aqui fazer algumas especulações a respeito do fascínio criado por uma série de TV, mas essa é uma conversa para outra ocasião.

O fato é que a genialidade de George R. R. Martin com seus livros e a competência da HBO revolucionaram irreversivelmente tanto a TV, quanto o mercado editorial brasileiro. Os livros de ficção fantástica sempre foram estigmatizados por aqui, como se tratando de um estilo literário destinado para crianças e adolescentes, de modo que até pouco tempo atrás era o que de fato se encontrava nas livrarias do país. Isso mudou, e afirmo categoricamente que graças ao sucesso de Game of Thrones.

Nos últimos anos as livrarias do país vêm sendo invadidos por uma avalanche sem fim de romances de literatura fantástica destinados a adultos. Eles já fazem sucesso mundo a fora há décadas, porém só nos últimos 8 a 9 anos vem sendo editados e publicados regularmente no Brasil. De maneira que se você acreditou que ficaria órfão da Guerra dos Tronos por muito tempo, existe uma luz no fim do túnel, melhor dizendo, existem DEZENAS de luzes no fim do túnel.

O TRONO DE FERRO COBRA SEU PREÇO EM SANGUE

Fogo e Sangue é o primeiro livro de uma possível trilogia escrita por George R. R. Martin, recentemente publicado pela Editora Suma, com ilustrações ilustrações de Doug Wheatley. Conta alguns dos momentos mais fantásticos ocorridos em Westeros: um tempo em que dragões selvagens nascidos em Pedra do Dragão ou até mesmo descendentes da misteriosa Valíria, voavam em liberdade pelos 7 Reinos, e não raro eram “cavalgados” por homens e mulheres de cabelos platinados e olhos lilases em meio a batalhas sanguinárias, que seriam capazes de deixar Daenerys e Drogon escondidos embaixo da cama.

A princípio, a estrutura do livro causou certo desconforto, por me remeter ao que foi proposto em O Mundo de Fogo e Gelo, (publicado anteriormente pela editora Leya) onde foi empregado um caráter essencialmente enciclopédico. Porém, o que temos em Fogo e Sangue é diametralmente diferente disso, e aqui somos apresentados à um texto super imersivo e fascinante.

A desconfiança inicial cai por terra logo após as primeiras páginas, mesmo que os eventos sejam “transcritos” de maneira propositadamente superficial em alguns pontos do livro, ele ainda é capaz de responder a diversas perguntas que carregamos desde a leitura de as Crônicas de Fogo e Gelo, e até mesmo a criação de novas especulações a respeito do que vimos no seriado da HBO.

DE AEGON I, O CONQUISTADOR ATÉ A DESGRAÇA DOS DRAGÕES

George R. R. Martin faz uso de um dos artifícios literários de J. R. R. Tolkien, e se apresenta como o responsável pela transcrição de uma das obras do Arquimeistre da Cidadela de Vilavelha, Gyldayn. Que nesse primeiro Tomo relata com “precisão acadêmica”, citando as devidas fontes, a história dos reis Targaryen, desde Aegon I (O Conquistador) até a regência e o reinado de Aegon III, com a “desgraça dos dragões”.

O arquimeistre Gyldayn traz à luz a história desse conturbado período partindo de um ponto de vista apropriadamente neutro, narrando todos os eventos relevantes com base em relatos de outros meistres, ou personagens de maior ou menor importância que deixaram alguma memória escrita a cerca dos acontecimentos que marcaram aqueles anos. Dentre estes, um livro peculiar e subversivo (best-seller na Baixada das Pulgas) que me chamou a atenção, foi a narrativa de Cogumelo, um anão que serviu como bobo da corte durante A Dança dos Dragões.

VALÍRIA AINDA QUEIMA!

O que aconteceu durante a Dança dos Dragões, quanto a casa Targaryen e seus dragões foram quase que completamente dizimados por guerras internas? O que de fato aconteceu em Valíria, e porque era perigoso viajar até lá? Arya Stark foi a primeira “exploradora” a se aventurar à Oeste do mundo conhecido? Boa parte dessas perguntas são respondidas (mesmo que parcialmente) no primeiro volume de Fogo e Sangue, porém o livro vai MUITO além delas.

A complexidade das alterações políticas que a chegada dos Targaryen provocam na estrutura social milenar dos 7 Reinos de Westeros é implacável, e em Fogo e Sangue vamos poder acompanhar em detalhes as posições dos Lordes das principais casas, que mesmo em face de terríveis animais utilizados como verdadeiras máquinas de guerra, continuaram exercendo seu poder por meio de intrigas, traições e casamentos políticos.

Mas mesmo todo esse arranjo (estabelecido após a conquista de Aegon I) era abalado quando um novo rei chegava ao poder, e por vezes poderia levar anos até encontrar um novo equilíbrio, com o fortalecimento ou a destruição absoluta de famílias ancestrais. Como disse o Varys da HBO: Sempre que um Targaryen nasce, os deuses lançam uma moeda…

Publicado em 24 de maio de 2019 às 21:56h.
2019-05-24 21:56:11