Em um ano cheio de grandes lançamentos de grandes produtoras e franquias de renome lançando grandes jogos. 2025 tem se destacado pelos lançamentos menores, alternativos e independentes que expandem a mídia dos videogames para frente, premiando idealizadores que se propõe pensar fora da caixa. Desde a novidade de trazer elementos soulslike para os jogos de turno com Clair Obscur: Expedition 33, que surpreendeu o mundo com a sua qualidade ímpar. A jogos como Silksong e Hades 2 que, mesmo sendo sequências de jogos já famosos, mostraram para a indústria o quanto a junção de devs apaixonados, ambientes de trabalho saudáveis e tempo de desenvolvimento pode fazer a diferença. Absolum, é mais uma dessas joias diferentonas!
Desenvolvido pela Guard Crush Games e publicado pela Dotemu, Absolum surge com a premissa de juntar dois subgêneros de jogos que, no papel, parece se contrastar demais; Roguelite, onde levels, NPCs, inimigos e habilidades são randomizadas. E Beat-em-up, onde a porradaria e o caos dominam a tela…Um mix ousado, pois algumas das principais características desses dois subgêneros misturados, como randomização dos Roguelite e o combate por vezes impreciso de um Beat-Em-Up, podem criar uma experiência frustrante para o jogador. Ao iniciar o jogo, a pergunta que fica é: Absolum consegue entregar um bom roguelite beat-em-up? Vamos descobrir!
História

Quando um grupo de magos ambiciosos decide experimentar magias proibidas e acaba provocando um cataclismo capaz de amedrontar todos os seres vivos do mundo de Talamh, a magia passa a ser vista como tabu. Nesse cenário, um novo rei surge, propondo salvar o mundo de toda forma de magia e oprimindo os usuários do reino. Esse é o universo que encontramos ao iniciar Absolum: um lugar onde qualquer pessoa flagrada usando magia, será oprimida. Seres mágicos são segregados e tratados como abominações, dando origem a uma guerra civil instaurada pelo Rei-Sol Azra, cabendo a um grupo de foragidos a finalmente dar um fim em tanta injustiça.
O grupo de personagens jogáveis é formado por: Galandra, uma elfa guerreira azul, de personalidade forte e um senso de honra muito grande. Karl, é um anão engraçado que usa dos próprios punhos e uma escopeta como armas no combate. Cidar, uma rogue que luta com duas adagas e tem como diferencial a sua velocidade e domínio do combate aéreo. Brome, um sapo mago bem carismático que flutua e usa o cajado como um skate para se locomover pelo mapa.

É visível o quanto outros jogos do gênero inspiraram Absolum, principalmente na interação entre os personagens e na progressão da história. Por mais que você conclua o jogo uma vez, a história só vai se revelar de verdade quando fizer outras runs, com outras escolhas de caminhos e builds. Interações entre os personagens da equipe principal começam simplórias e, ao avançar por outras runs, vão ganhando novas camadas, os personagens vão se conhecendo melhor e, por consequência, o jogador também vai entendendo melhor o propósito de cada um deles. O jogo também incentiva que o jogador escute o que cada NPC tem para dizer pois geralmente são dicas importantíssimas para futuros caminhos.
Por mais que a ideia de contar a história dessa forma seja boa, e que tenha funcionado em outros títulos como Hades, em Absolum, a história acaba demorando um pouco demais para realmente engrenar, enfraquecendo a narrativa no geral. As primeiras runs parecem mais uma história fantástica com governos tirânicos no poder, o que acaba tornando as horas iniciais um tanto quanto cansativa. A coisa muda um pouco de figura quando ABSOLUM é finalmente apresentada, mas não o suficiente para essa história se destacar ou compensar o início arrastado.
…Mas nem tudo é sobre história

Antes de partirmos para falar da jogabilidade, precisamos falar sobre o visual e trilha sonora de Absolum! O jogo logo de cara te presenteia com um visual que demonstra carinho e atenção por cada detalhe. Os traços fortes em volta dos personagens e elementos do cenário fazem com que o jogador nunca se perca na ação, as cores vivas e vibrantes dão um charme para as diferentes raças que habitam o mundo de Talamh.
Cada ataque, cada magia e cada interação de cenário te passam a impressão de estar vendo um desenho animado clássico do Cartoon, dando um charme único para o game. Para fechar o pacote, há um leve uso de blur nos personagens que torna eles palpáveis, texturizados ao ponto de parecerem bonequinhos carismáticos, tornando visível o esforço dos artistas que trabalharam no game.
Outro ponto, referente ao visual, é a ótima progressão de cenários que o jogo tem. Inicialmente, o jogador pode escolher começar pelos litorais de Talamh, onde há corpos em decomposição e abutres, ou começar por uma floresta vermelha cheia de orcs lutando entre si. Ambos dão acesso às minas, e tem visuais que revelam ao jogador a condição sociopolítica de Talamh; começamos por baixo, pelos peões de guerra, onde os cenários destruídos e cheios de morte te contextualizam sobre o quão difícil é a vida nesse lugar, enquanto seguimos rumo as camadas mais privilegiadas de Talamh.
Trilha sonora de peso!

Uma das coisas que mais chamaram a atenção em Absolum foi a seleção de compositores convidados para integrar o seu elenco. Gareth Cooker, mesmo compositor da trilha sonora Ori and the Blind Forest, Halo Infinite e Prince of Persia The last Crown, assina a OST do jogo e logo de cara te impressiona com uma música tema que utiliza a bateria e o órgão para dar um senso de aventura e perigo, uma junção que ilustra bem a jornada dos nossos quatro personagens para derrotar o Azra.
Gareth Coker orquestra uma seleção de convidados para algumas músicas do jogo, os mais renomados são Yuka Kitamura (compositora de trilha sonora de Dark Souls e Elden Ring) e Mick Gordon (compositor da trilha sonora de DOOM 2016). Ambos os compositores deixam suas marcas em pontos chave de Absolum, tornando a participação especial uma grata e marcante surpresa.
Beat ‘em up medieval

Tanto a Guard Crush quanto a Dotemu possuem um ótimo histórico quando falamos de jogos beat ‘em up modernos, sendo Streets of Rage 4 o mais marcante da parceria entre o estúdio e a publisher, logo, já era de se esperar algo minimamente bom vindo de Absolum. O que não esperava era que Absolum superaria todas as minhas expectativas.
Ao escolher um dos 4 personagens jogáveis, o jogador precisa se adaptar com a proposta de cada herói. Galandra, por exemplo, é ótima para quem gosta de jogar com guerreiros com espadão e não abre mão de bons combos aéreos. Karl é bruto e é ótimo para quem curte encher os inimigos de porrada bem de pertinho. Cidar é uma assassina veloz e excelente para quem ama desvios rápidos e combate aéreo. Brome é o maguinho, ótimo para quem quer um combate mais distante e apelões, tem magias que cobrem a tela inteira ou habilidades de criar clones que dão dano nos inimigos.
O Combate de Absolum brilha na diferença entre os personagens, já que cada um tem o seu próprio estilo de luta, fazendo com que cada um tenha o seu momento badass durante a pancadaria generalizada. O mais engraçado do combate é que todos os personagens literalmente caem no soco com todos os inimigos, de um cavaleiro comum a um Deus do sol, todo mundo leva porrada!

Vale destacar que colocar o jogador tendo que ir em direção ao ataque dos adversários para dar parry foi uma decisão incrível, principalmente em um Beat ‘em up, pois incentiva o jogador a sempre procurar o combate e prestar atenção no timing dos inimigos. Diferente do que acontece em alguns títulos que implementam o parry em seu gameplay, o ritmo de Absolum continua frenético, o que torna extremamente satisfatório realizar parrys.
Outro ponto interessante do gameplay de Absolum é como ele te deixa livre para montar as builds mais quebradas do mundo, graças a um leque de habilidades são fortes e visualmente maneiras o suficiente para deixar o jogador empolgado para testar. Além das habilidades que encontramos pelas runs, cada personagem começa com uma opção de ataque secundário, sendo a porrada o ataque principal, que pode ser comprada e trocada antes de uma run. Ficar atento a essas armas secundárias é crucial para uma boa run e para não passar sufoco nos trechos mais complicados do jogo.
Pelo jogo se passar durante uma guerra civil em Kalamh, há muita confusão pelas fases do jogo, o que adiciona um caos a mais para o jogador administrar durante as lutas, indo desde soldados de Azra que se juntam com cavaleiros humanos para lutar contra orcs, ou orcs com cavaleiros de Azra, o que acaba criando variações de lutas bem interessantes, pois é preciso saber qual inimigo focar primeiro no ambiente em que se está.
E é aí que o lado Roguelite do jogo converge com o combate Beat ‘em up.
Roguelite?

Se por um lado conseguimos ver a habilidade da Guard Crush em fazer ótimos Beat ‘em up, por outro vemos que eles ainda precisam evoluir algumas ideias para fazer um bom roguelite…
Como dito anteriormente, a história de Absolum é contada pelas runs que finalizamos. É uma ideia que já foi testada e bem executada por outros jogos, e que se provou eficaz por oferecer variedade entre as runs e engajar o jogador para saber o que vai acontecer depois que vencer a próxima run e pelos cenários randômicos que cada nível pode oferecer.
Em Absolum, isso acaba não acontecendo pois o jogo parte da premissa que todos os caminhos são os mesmos em toda run, sem variação de cenário ou níveis diferentes para o mesmo cenário. Para um jogo que depende do interesse do jogador em passar várias vezes nos mesmos caminhos, a falta de aleatoriedade nos encontros ou grandes mudanças entre um run ou outra acaba se provando um erro.
O jogo consegue contornar esse problema com a adição de fases secretas que liberam novos caminhos durante algumas runs. Diria, inclusive, que o melhor conteúdo de Absolum se esconde nessas ramificações de mapas que te levam para outro lugares secretos, onde se descobre novas informações do mundo de Talamh e, principalmente, sobre Absolum. Nessas rotas alternativas se escondem as melhores e mais divertidas lutas contra chefes do jogo, o que é uma grata surpresa.
E após completar esses níveis “secretos” o jogo começa a dificultar futuras runs ao adicionar portais que transportam inimigos de partes mais avançadas do jogo logo no início, o que é um recurso legal, mas não é o suficiente para evitar que futuras jogadas fiquem maçantes.

A forma como o jogo não te dá acesso a todos os tipos de habilidades, que aqui são chamadas de “Rituais”, logo no início. A cada run com um novo personagem, novas habilidades de elementos diferentes são desbloqueadas é um diferencial bem bacana, que adiciona uma certa profundida ao gameplay. Por exemplo, com Galandra é possível usar muitas rituais de fogo, fazendo com que sejam liberados aprimoramentos para habilidades de fogo pra próxima run. Já com Brome, o sapinho, muitos rituais de clonagem aparecem no caminho dele, que podem ser usados e aprimorados por outros personagens caso Brome morra ou complete o objetivo daquela jornada. É um elemento bacana para a progressão do jogo, que faz o jogador ser recompensado a cada run e ficar cheio de opções para criar combos poderosos nas próximas tentativas.
Infelizmente a parte mais problemática de Absolum é justamente o seu fator Roguelite; A falta de randomização durante os níveis, desde elementos do cenário aos inimigos que enfrentamos em runs mais avançadas, acaba tornando Absolum o tanto quanto cansativo depois de algumas horas. Por outro lado, o sistema de progressão das habilidades e como os personagens vão se revelando a cada run é muito bem feito.
Vale a pena jogar Absolum?

Absolum é um jogo incrível que tenta juntar dois subgêneros quase que antagônicos para criar uma experiência diferente e que, por grande parte da sua duração, consegue divertir com um combate gostoso e cheio de habilidades maneiras. O sistema de parry que incentiva a agressividade e atenção aos inimigos, é uma adição brilhante para os Beat em ups.
Só é uma pena que a história de Absolum não seja das melhores e que muitos dos clichês de jogos de fantasia medieval ainda estejam presentes aqui, fazendo com que algumas passagens do jogo se tornem bem esquecíveis. Por outro lado, a direção de arte e trilha sonora desse jogo são espetaculares; As cores vibrantes dos personagens, as animações feitas a mão e esse elenco estrelado de compositores que participaram da trilha sonora elevam o nível de Absolum.
Absolum brilha como ótimo Beat em up com seus personagens divertidos de se jogar e um sistema de progressão de habilidades excelente. Porém, por causa da falta de uma randomização mais eficiente e cenários que ficam cansativos depois de algumas runs, falha como um bom Roguelite.
Esse review de Absolum foi produzido através de uma chave de review do game para PS5, gentilmente cedida pela Dotemu
O Review
Absolum
Absolum é um ótimo Beat 'em Up com um ótimo gameplay, visuais e trilhas sonoras incríveis. Porém, o game falha em ser um bom roguelite, oferecendo uma história que demora para engrenar e pouca variação entre as runs.
PRÓS
- Visual maravilhoso
- Combate divertido
- Ótimos personagens principais
- Trilha sonora primorosa
CONTRAS
- Falta de randomização melhor
- Cenários ficam repetitivos
- História mediana






