A ressurgência do gênero survival horror vem trazendo bons frutos para o mundo dos games, e embora não pareça, 2026 está cheio de joias raras prontas para serem descobertas. Além dos grandes Resident Evil Requiem e Fatal Frame II Remake, os jogos independentes também tem sua parcela de esforço nesse aspecto, e a Blumhouse Games, derivada da grande produtora de filmes de terror Blumhouse Productions, apresenta Crisol: Theater of Idols, uma das grandes apostas no gênero, mesmo com orçamento longe dos grandes AAA.
Lançando ainda hoje (10) nas plataformas Xbox Series, PS5 e PC, Crisol: Theater of Idols promete misturar o gameplay frenético de um bom FPS com uma pegada de terror altamente autoral e cheia de temáticas perturbadoras e incômodas, e é nesse contexto que iremos analisar o lançamento da debutante Vermila Studios, que gentilmente nos forneceu uma chave do título, e aqui você confere todas as nossas impressões do game, mas já adianto que é difícil ele não chamar a sua atenção.

Apesar de Crisol ser um game de terror que exala fortes inspirações de jogos em primeira pessoa como Resident Evil 7 e Amnesia: The Dark Descent, o ritmo do game busca ser um tanto mais focado na ação e no aspecto “shooter“, ao invés do ritmo mais lento e focado no assombro, mas ainda consegue manter o clima dark, aliado a um tiroteio mais intenso.
Um FPS diferenciado
Com armas sempre em punho, Crisol raramente vai deixar o jogador sozinho, e a todo momento novos inimigos aparecem, com uma variedade considerável destes, e com cada um tendo uma abordagem diferente de se enfrentar, e essa tensão advinda do combate e do frenesi é o que mais tensiona o jogador, ao invés dos jumpscares ou das passagens mais atmosféricas e psicológicas que outros games possuem.

Uma característica interessante e bastante única de Crisol é o seu sistema de saúde e de munição. Em survival horrors, ambos os atributos são muito relevantes para o jogador, e a falta de um costumeiramente acaba sendo uma “compensação” do outro lado, como a falta de balas e abundância de saúde podem fazer você optar por desviar dos monstros ao invés de combatê-los, mas aqui, de uma forma muito inteligente, Crisol mistura as duas coisas e as torna uma só.
Sangue, além de fonte de vida, também é o que “alimenta” suas armas, e a cada vez que seu pente é recarregado, sua vida se esvai, criando um equilíbrio muito importante e que pode despencar a qualquer momento, afinal cada ataque sofrido também significa que terá menos balas, assim como dar tiros demais faz suas chances de sobreviver cada vez diminuírem, criando um contraste e uma união bastante interessantes e originais.

Nem tudo em Crisol: Theater of Idols é sobre terror
Além disso, como se pode esperar, o jogo conta com seu próprio “Nemesis”, a Dolores, que irá perseguir Gabriel em momentos-chave e também é fonte de pavor para o jogador, embora seja relativamente fácil de lidar com ela e driblar seu comportamento conforme o jogo avança, e por falar em dificuldade, Crisol também é relativamente leniente nesse aspecto, tendo sua dificuldade bastante correlata com sua habilidade em FPS, e conforme mais upgrades são obtidos, o jogo também afrouxa a barra.
Uma outra coisa interessante de Crisol é o seu formato em capítulos, nos quais cada capítulo terá um distrito diferente da cidade a ser explorado, e entre eles, uma espécie de hub no qual conversamos com NPCs, buscamos recompensas por itens secretos encontrados durante o game, e até mesmo podemos participar de minigames em uma feirinha, que dão fichas que podem ser resgatadas por mais recursos. Claro, isso não tem nada de tenso e até deixa o jogador mais relaxado, mas ainda é bem legal de se ver, e porque não, um merecido descanso para o sofrido Gabriel.

Além disso, caçar os itens e recursos escondidos também é bem divertido. Como o jogo conta com um mapa, é difícil ficar muito perdido nos cenários, e como ele repete o sistema de Resident Evil Village de deixar as salas com itens escondidos pintadas de vermelho, pra quem gosta de ver tudo limpo, é quase um imperativo que o jogador irá caçar tudo que houver por lá até o mapa ficar completamente azul, mas claro, apesar de um bom incentivo, é algo completamente opcional, e pode ser ignorado sem nenhum problema.
Um estilo muito distinto habita aqui
Apesar da variedade boa de inimigos, eu senti que Crisol pesou pouco a mão em misturar mais os inimigos de diferentes formas pra te pegar de surpresa, pois vários deles aparecem em poucas seções de jogo, e os mais simples são os que permeiam toda a aventura, o que perde um pouco do potencial em deixar o jogo mais desafiador conforme avançamos e adquirimos novas armas e habilidades.

E sim, o jogo possui seleções de dificuldade padrão e até customizáveis, mas sinto que a experiência “normal” poderia manter um pouco mais o nível desafiador, e por consequência, a tensão nos combates, já que o enredo, por exemplo, fica cada vez mais tenso e obscuro conforme mergulhamos mais no mistério de Tormentosa.
Por falar em Tormentosa, o enredo de Crisol é muito interessante, e aliado a sua estética e país de origem, o jogo mostra a que veio e “segura a peteca” no sentido narrativo de uma forma muito boa.
Tormentosa é muito mais profunda do que aparenta
Com inspirações diretas na religiosidade espanhola, Tormentosa adora o Deus Sol, e Gabriel, nosso protagonista, é um fiel devoto da divindade, indo em uma missão sagrada contra os que cometem sacrilégio contra seu Deus, e também com os adoradores do Mar, uma divindade vista como inimiga por ele, e claro, tudo isso envolto em muito mistério e subjetividade.

Além de Gabriel, outros personagens, como Meiodía e o Padre Arroyo, também dão mais camadas para o enredo, sendo personagens interessantes, mas não tão complexos assim, embora consigam deixar o clima e os mistérios bastante pertinentes até culminarem em uma resolução bastante impactante, embora, novamente, seja uma história com um ritmo diferente, já que a maioria das interações menores entre NPCs não desenvolvem o enredo tanto assim, e apenas algumas esparsas cutscenes explicam a maioria dos ocorridos.
Inclusive, considerando que a jornada de Gabriel é em grande parte solitária, esses diálogos menores são desenvolvidos muitas vezes via walkie talkie, porém muitas dessas conversas são um pouco intrusivas, acontecendo com uma certa frequência e com pouco a acrescentar, e algumas vezes fiquei irritado com elas acontecendo a todo momento, mas claro, isso também é algo pessoal e que depende do quão afeiçoado você está com os personagens.

Inspirações vindas diretamente do coração da Espanha
No quesito visual, no entanto, Crisol: Theater of Idols não decepciona. Se inspirando nessa estética andaluziana que também foi a inspiração de Blasphemous, o jogo está repleto de acenos visuais para a estética Católica medieval, com seus próprios retoques, resultando em uma versão “distorcida” e mais visceral da sua inspiração inicial, o que se reflete não só nos cenários, mas também nas armas e inimigos.
Além dos visuais e um estilo artístico muito característico, o trabalho em áudio também não fica atrás, com efeitos sonoros bastante distintos, fazendo com que cada tiro possa ser “sentido” da melhor forma, e o trabalho de voz dos personagens também é ótimo, oferecendo opções de áudio em inglês e em espanhol – essa segunda opção, por sinal, deixa o jogo ainda mais imersivo, então mesmo que você seja fluente em inglês, fica a recomendação do idioma nativo da produção. A trilha sonora, entretanto, apesar de contar com algumas trilhas boas, especialmente nas lutas contra chefes, infelizmente não é uma das memoráveis que há em outros momentos.

No quesito acessibilidade, Crisol também é bem democrático, contando com opções de texto em português brasileiro, além de, como mencionado anteriormente, opções de customizar diversos aspectos diferentes do jogo, e conta com uma performance bastante decente no PC, sem deixar a desejar em nenhum quesito técnico, felizmente.
Crisol: Theater of Idols pode não agradar a todos, mas é um jogo que se destaca por seus méritos
Por fim, Crisol: Theater of Idols é certamente um jogo de terror diferenciado, que pode não entregar sustos ou uma cadência mais lenta, mas consegue ser muito original em sua jogabilidade e na forma como demonstra sua tensão e tenta encurralar o jogador em algum canto, além da estética verdadeiramente distinta que agrega muito à experiência.

Claro, é um jogo com um público-alvo bastante definido, mas para fãs de terror ou de jogos FPS que passem longe do genérico, essa certamente é uma das boas pedidas para esse ano, e marca mais um dos acertos da recém inaugurada Blumhouse Games.
O Review
Crisol: Theater of Idols
Crisol: Theater of Idols é um FPS de terror que se destaca por focar na ação e no combate ao invés da atmosfera cadenciada, e isso aliado à uma estética bastante própria da origem do estúdio fazem com que o jogo seja um grande destaque no gênero, mesmo que não seja o mais assustador.
PRÓS
- Combate divertido e engajante
- Estética vibrante e muito original
- Narrativa interessante para o que se propõe
- Exploração é bastante incentivada
- Trabalho de voz em espanhol muito bem feito
- Efeitos sonoros bem impactantes
- Opções de customização de dificuldade
- Localização em português brasileiro
CONTRAS
- No nível normal, jogo é relativamente fácil conforme progresso
- Puzzles são fáceis de se finalizar
- Trilha sonora pouco memorável
- Interrupções para diálogo um pouco chatas






