Acho que é justo dizer que o gênero dos CRPGs, caracterizado pela aproximação dos jogos de mesa e conhecidos pela grande profundidade e liberdade como os primeiros Fallout e Baldur’s Gate, está tendo uma ressurgência. Com jogos como Baldur’s Gate 3, Divinity e Disco Elysium se aproximando mais do grande público e sendo um deleite da crítica especializada, é normal que vejamos cada vez mais propostas e apostas com disposição para evoluir, ou apenas aproveitar, essa nova onda.
E é nesse contexto que surge Esoteric Ebb, o mais novo CRPG publicado pela ilustre Raw Fury, que não esconde as claras inspirações em Disco Elysium, porém também trazendo seu próprio tempero ao abordar uma ambientação medieval mais familiar aos fãs de Dungeons & Dragons. Tendo sido lançado no dia 3 de Março de forma exclusiva para PC, ao menos por enquanto, aqui jogamos e trouxemos uma análise completa dessa experiência graças à uma chave de acesso concedida pela empresa responsável.

Uma loja de chá explodiu. Você, um clérigo, acorda em um necrotério, sem saber se estava vivo ou morto. É assim, de forma breve, que Esoteric Ebb inicia, sem muitos pormenores nem grandes explicações, e o desenrolar da narrativa e da jogabilidade se desvenda gradualmente, e certamente exige que o jogador interaja e converse com todos a vista.
Mais uma investigação se inicia…
Se você conhece Disco Elysium, nada em Esoteric Ebb realmente será estranho, mas caso não seja o seu caso, saiba que, diferentemente de outros RPGs, recentes ou antigos, o combate e a ação aqui estão longe de tomar os holofotes, e as ações, escolhas, builds, atributos e rolar de dados tem um caráter muito mais social do que combativo, então sim, é um game “de ler”. Mas também “de conversar”, “de explorar”, “de raciocinar” e não menos importante, “de escolher”.

E como tudo isso funciona, na prática? Bom, vamos lá: Ao iniciar o game, de cara já podemos escolher algumas opções que vão definir um número para cada um dos 6 atributos básicos de Esoteric Ebb: Força, Destreza, Constituição, Inteligência, Sabedoria e Carisma. Embora cada uma delas tenha um uso diferente, todas são relativamente equilibradas e tem um papel diferente durante o caminhar da jornada, então sinta-se livre para escolher o que achar mais confortável.
Ao prosseguir em sua gameplay, diversas ações são representadas por texto e figuras, em grande parte diálogos com outros NPCs, mas também podem descrever outras ações, as quais podem ser desempenhadas como falha ou sucesso através do rolar de um dado, que vai de 1 a 20. Por exemplo, ao se deparar com uma emboscada inimiga, pode optar pela opção de Força para derrotar os inimigos, ou Destreza para fugir deles, com cada escolha tendo um número que define o sucesso ou erro.

É um RPG, mas esqueça os combates e a porradaria
Por exemplo, se a ação de Força na situação anterior requer um 14 de sucesso, e você possui um status alto em Força, pode ganhar +2 de bônus no número, e mesmo que consiga um 12 no dado, o bônus fará você passar o desafio, e isso está presente durante todo o jogo, com todos os 6 atributos que definem seu personagem, numa mistura de estratégia, escolhas e claro, uma boa dose de sorte. Ou azar.
Mas se acertar um rolar de dados faz o jogo progredir, o que acontece se eu falhar? Aí que está o pulo do gato. Em Esoteric Ebb, seu HP não é só sua vida, mas também seu “ego social”, ou seja, se durante uma tentativa de convencer alguém ou de ser eloquente, você falhar, o seu Clérigo irá morder a língua ou falar alguma besteira, passar vergonha e ter sua vida diminuída, o que, se não cuidar, pode acabar se tornando um grande problema, afinal se você perder toda sua vida, pode ficar Exausto, o que dará penalidade a todos os seus atos futuros, pelo menos até o raiar de um novo dia.

Para evitar isso, é bom estar sempre de olho em itens que recuperam sua vida, como Maçãs e outras comidas, além de claro, buscar sempre equipamentos e acessórios que, além de usos e efeitos bem específicos, também aumentam um ou outro atributo em alguns pontos, o que também adiciona mais gerenciamento e sistema de builds para Esoteric Ebb.
Sistemas densos e esotéricos o suficiente
Outro sistema interessante, e que faz um paralelo com a Cabine de Pensamentos de Disco Elysium, é a capacidade de enraizar suas crenças e formar feitos, que são algumas habilidades especiais que podem ser obtidas ao terminar alguma missão secundária. Ao final de uma quest, especialmente as que possuem dois lados opostos de um conflito e cuja solução depende da agência do jogador, o Clérigo analisa a si mesmo e o que ele pensa sobre cada uma das ideologias envolvidas, e a partir disso, cria uma crença e assim ganha o bônus respectivo da sua decisão.

Tais ações, bem como escolhas que ocorrem em diversos diálogos durante sua investigação, também formam a personalidade do Clérigo. Embora, como o nome diz, nosso protagonista seja um clérigo, ele pode reafirmar mais seu emprego, ou começar a inventar para as pessoas que ele é outra coisa, como um mago, bruxo, ou ladrão, e ao sedimentar sua reputação como alguma dessas coisas, o jogo e os habitantes começam a te tratar do jeito que se identificar.
Além disso, uma trama paralela(mas ao mesmo tempo conectada) também ronda a cidade de Tolstad, e aqui temos uma Eleição, que irá ocorrer daqui 5 dias, com diversos partidos diferentes lutando pelo poder, dando mais profundidade para a trama e também para o Clérigo, que pode optar entre os Nacionalistas, os prósperos Liberais, os anões Trabalhistas, ou até mesmo buscar ser apolítico(se é que é possível ser) ou se candidatar ele mesmo para a Eleição, sem partido nem renome.

Uma mistureba de sátira, reflexões e subversões ao que há de mais tradicional em RPGs
Tenho certeza que, caso você seja familiarizado com Disco Elysium, tudo aqui é relativamente familiar, e Esoteric Ebb nunca esconde essa clara inspiração, mesmo que a ambientação tome uma forma medieval bastante “tradicional” no mundo dos RPGs, o que dá ao game uma oportunidade e tanto para brincar com os conceitos e preceitos dessa estrutura, o que ocorre com bastante frequência, e tudo de mais maluco pode ser encontrado por aqui.
Anões revolucionários? Temos. Demônio(ou diabo?) dono de taverna? Também. Um anjo que está preso ao trabalho burocrático de um banqueiro? Sim, também está lá. Isso sem contar na masmorra colossal que está enterrada debaixo da cidade, cheia de enigmas estranhos, mímicos sorrateiros e uma gangue de duendes liderada por uma goblin muito estranha, mas que pode ser de grande ajuda, ou uma baita pedra no seu sapato.

Talvez não tenha ficado claro, mas tudo aqui é um grande depende. Nenhum personagem ou ação são necessariamente maus ou bons, e tudo depende da sua perspectiva, bem como você pode se aliar ou rivalizar qualquer personagem e organização, sem muita restrição nesse quesito, e até alguns combates acontecem de forma esporádica, mas novamente, sem enfoque na ação, e tudo é resolvido por decisões expostas em texto e muito rolar de dados.
O que Tosltad e seus segredos realmente têm a nos oferecer?
Tudo isso parece perfeito, especialmente pra quem gosta de um bom RPG com enfoque na narrativa e nos diálogos, certo? Sim, mas… talvez seja perfeito até demais. Mas qual a lógica disso? Bom, eu explico: como dito anteriormente, e como Esoteric Ebb não faz nenhum esforço de evitar, o título é um “Disco-like”, nos melhores e nos piores aspectos. Ou seja, apesar de uma narrativa extensa e bastante densa, com ótimos diálogos e sistemas que conversam bem com o enredo, nada aqui parece realmente novo ou original demais.

O estilo do game, como os diálogos são formatados, e até as personalidades de cada Atributo, que formam as famosas “vozes da sua cabeça”, são diretamente trazidas de Disco, sem contar no estilo investigativo do game(afinal, apesar de ser um Clérigo, aqui você age mais como um detetive), que tem um mistério permeado por intrigas políticas e muitas conversas filosóficas e com um alto teor sociológico.
Ou seja, no fim das contas, Esoteric Ebb é um perfeito “Disco Elysium só que medieval”, o que certamente deixa os fãs do game inspiracional bastante felizes, assim como eu fiquei, mas fica difícil pra mim não admitir que o jogo poderia ser bem mais que isso. Não que o game seja uma cópia idêntica, longe disso, ele tem alma, personalidade e até seus sisteminhas próprios, mas é evidente que onde ele mais brilha é quando busca se assemelhar ao jogo que lhe inspirou.

Narrativa beira o impecável, mas talvez faça isso até demais
Por falar nisso, indo direto ao ponto, a narrativa de Esoteric Ebb, por si só, é inegavelmente muito boa mesmo. Além do mistério principal, as missões secundárias e os NPCs representantes de diferentes lados políticos, alinhamentos e interesses próprios também têm seu carisma, e é muito, muito difícil que você entre em algum diálogo sem explorar todas as opções e tirar o máximo possível de cada caboclo que vagueia por Tolstad.
As intrigas políticas, como dito anteriormente, também são muito boas e complexas, tocando em diversos temas políticos, sociais e de interesse público, com diversos insights, bons discursos, narrativas e até mesmo afirmações ridículas e completamente alheias da realidade. Sério, tem tudo ali em diferentes formas e medidas, e além dessa grande exposição, você escolhe livremente, como sempre, como reagir a cada coisa que lhe for falada.

No entanto, apesar dos personagens carismáticos e tramas envolventes, devo dizer que algumas coisas não são tão boas quanto poderiam ser, especialmente se, novamente, tivermos que comparar o jogo com Disco Elysium(desculpa, é inevitável!). Por exemplo, no clímax de todo o mistério, assim como no jogo que Esoteric Ebb se baseia, temos uma guinada forte a respeito da solução de tudo e a causa do conflito, quase repetindo o plot twist do jogo original, só que, enquanto lá fazia bastante sentido com a proposta do game, aqui isso se perde um pouco, além de sofrer com um impacto ainda mais diminuto justamente por se tratar de uma repetição.
Alguns vícios tiram o maior brilho que Esoteric Ebb poderia ostentar
Além disso, vale dizer que, embora Esoteric Ebb não tenha comentários tão densos o tempo todo, a linguagem é até simplificada em alguns casos, o que pode ajudar a quem não tenha tanta bagagem política e literária pra entender tudo o que está sendo dito, o que certamente é um ponto positivo, mesmo que, por outro lado, o poder de síntese de Esoteric Ebb seja bastante diminuto em comparação com Disco, e certamente não saí da jogatina com tantas frases e insights marcantes quando poderia.
E o visual, hein? Esse não é tão parecido com o jogo que inspirou o game original, e é um dos melhores chamativos de Esoteric Ebb para além de ser um “Disco-like”, com uma pintura estilo aquarela, recheada de tons pastel e que dão a impressão que o jogo é uma grande gravura interativa, sem contar nos desenhos do cenário e design de personagem que deixam cada um com seu carisma específico, e sem dúvida é um dos fortíssimos pontos que Esoteric Ebb segura por si só.

No entanto, o HUD, seja a parte dos textos e diálogos, inventários e até os sistemas de atributos, também são igualmente belos, mas talvez não tão originais, embora, honestamente, cada atributo e missão tem ícones e gravuras tão bonitos que eu admito que passo um pano para a suposta falta de originalidade em replicar o estilo de Disco Elysium, afinal, não é como se fosse necessário se distanciar 100% da inspiração original. Abraçar ela ao invés de negá-la é mais honesto e benéfico, especialmente quando isso também dá vazão para a originalidade, o que certamente é o caso desse game no seu aspecto visual.
Falta de vozes e de localização em português são os maiores pecados
No tangente aos aspectos sonoros, porém, há aqui um grande problema, ao menos na minha opinião: a falta de voice acting(dublagem, para os mais íntimos), prejudica muito o fluxo do game, coisa que até Disco Elysium corrigiu em seu lançamento “The Final Cut“, e sim, isso prejudica um pouco da leitura e pode tornar até o game um tanto enfadonho, pois os textos são realmente longos e certamente se valorizariam muito de um trabalho de voz finamente executado, o que eu acredito que possa acontecer em alguma atualização futura.

Em outros aspectos, porém, não há muito o que reclamar. Os efeitos sonoros em geral são bons e a música, embora também seja atmosférica e de tons graves, tudo se encaixa bem com o que a trama e o enredo estão nos preparando, e sem dúvidas é uma grande trilha sonora, embora não seja uma das mais marcantes já vistas em um CRPG.
Caso você já tenha reparado pelas screenshots, sim, Esoteric Ebb é inteiramente disponível apenas em inglês, o que é um problema e TANTO considerando que o jogo é inteiramente baseado em texto e possui diálogos e escrita relativamente densos, o que acaba atrapalhando bastante quem não tem fluência no idioma, sendo praticamente impossível de aproveitar a experiência, embora eu ainda espere que o game também “se inspire” em Disco e posteriormente localize o jogo em português com a devida forma e o carinho.

Fãs de Disco Elysium tem um presentão em mãos, mas…
Por fim, Esoteric Ebb certamente é um grande CRPG, e que não só sacia a fome dos fãs de Disco Elysium enquanto nenhum dos sucessores oficiais ainda está próximo de lançar, mas é verdade que pouco aqui vá ser uma expansão verdadeira da experiência vista em Revachol, ao invés de mais um “remember” com aquele ex que já seguiu em frente com a vida.
Verdade seja dita, Esoteric Ebb tem muito potencial, e com uma escrita fenomenal, personagens carismáticos e um estilo artístico muito únicos, o futuro parece brilhante para o desenvolvedor, já que mesmo caindo em alguns “vícios” oriundos de um carinho e respeito profundos por Disco, ainda deveria ser capaz de ser muito mais do que o que atualmente é, e ainda espero ver mais desse universo no futuro, a sua forma, caminhando sob seus próprios pés e sem estar eternamente nos ombros de gigantes.
O Review
Esoteric Ebb
Um CRPG altamente competente em sua escrita, liberdade e estilo artístico, que entregam uma carga relativamente densa de diálogos política e socialmente relevantes, mas que, por bem ou por mal, se prende demais nas suas inspirações originais.
PRÓS
- Ambientação medieval em tons de "gravura" é excelente
- Diálogos e textos são, num geral, bem escritos, complexos e imersivos
- Sistemas de RPG são funcionais e direto ao ponto, com grande enfoque na liberdade
- Liberdade de ações e escolhas bastante grande, além das opções de customização e builds
- Quests secundárias com histórias paralelas igualmente boas e conectadas com a história principal
- Trilha sonora ambiente bastante agradável e digna do ritmo da aventura
CONTRAS
- Falta de voz durante os diálogos torna o fluxo um pouco monótono
- Falta de localização em português brasileiro é um grande impeditivo do game
- Alguns bugs pontuais que alteram um pouco da experiência
- O jogo se depende demais de suas inspirações






