Após quatro anos do lançamento de Little Nightmares II, a franquia de terror e aventura retorna para assombrar (e divertir) mais um Halloween. Dessa vez, com novos personagens, novas formas de interagir com o mundo do jogo e, o mais importante: um novo estúdio!
A Supermassive Games não é novata no gênero. Muito pelo contrário: o estúdio emplacou diversos sucessos no terror desde Until Dawn e em toda a franquia The Dark Pictures Anthology, além de ter dado suporte na versão de Stadia de Little Nightmares II. A escolha deles para substituir a Tarsier Studios, responsável pelos dois primeiros Little Nightmares e pelo semelhante Reanimal, parecia mais do que adequada.
No entanto, analisando o catálogo da Supermassive, fica claro que nenhum de seus jogos anteriores misturava o gótico e o fantástico da mesma forma que Little Nightmares. Mesmo tendo colaborado em Little Nightmares II, este seria o primeiro título da franquia desenvolvido integralmente por eles, o que gerou certa desconfiança entre os fãs. E é com muita alegria que digo: sim, a Supermassive conseguiu entregar um ótimo Little Nightmares sem a ajuda da Tarsier Studios.
História

Se há algo que me encanta nos livros de Stephen King, especialmente em It: A Coisa, é a forma como ele apresenta personagens inocentes evoluindo através da dor, do medo, das inseguranças e até mesmo da violência. Ele mostra que o mundo pode ser belo, que amizades e amores importam, mas também deixa claro que vivemos em um lugar amedrontador e cruel, onde nossas ações parecem pequenas diante da imensidão do universo.
Neil Gaiman, influenciado por autores como o próprio King e Edgar Allan Poe, aborda ideias semelhantes em Coraline, transformando pessoas e situações do cotidiano em um conto gótico no qual os monstros são reflexos dos medos e traumas da realidade.
E o que isso tem a ver com Little Nightmares III? Absolutamente tudo.
Desde o primeiro jogo, Little Nightmares se propõe a explorar o contraste entre inocência e terror, colocando figuras frágeis em ambientes opressores e transformando elementos comuns em pesadelos monstruosos. Em Little Nightmares III, acompanhamos a jornada de Low e Alone pela Espiral, um reino onde o pior da realidade se converte em horrores fantásticos.

Low, com suas roupas surradas, máscara de corvo, dreads e capa de herói, carrega um arco. Alone, de macacão verde e cabelo punk saindo de um capacete, parece ter saído diretamente do Slipknot. Ambos são personagens bem construídos, carismáticos e com designs tão marcantes quanto os protagonistas dos jogos anteriores.
Outro grande acerto é a maneira como a relação entre eles é desenvolvida. Conforme avançamos, o vínculo se torna mais denso e trágico, e o terror deixa de ser apenas visual para se tornar também emocional, tudo sem diálogos compreensíveis, apenas pelo gestual e pelas ações dos dois. A narrativa nos faz refletir sobre questões do nosso próprio mundo, como abandono, desilusão, solidão e medo.
Fases

Com protagonistas tão cativantes, o jogo nos conduz por quatro fases distintas e criativas, onde o grotesco se mistura ao belo.
A primeira fase nos apresenta a um deserto surreal, habitado por um bebê reborn gigante que petrifica com o olhar. Esse colosso remendado destrói prédios em busca dos protagonistas, enquanto brinquedos enormes se espalham pelas ruínas. O contraste entre a figura infantil e o cenário pós-apocalíptico cria um impacto visual inesquecível logo de início.
Na segunda fase, exploramos uma fábrica de doces gigantes, onde criaturas que lembram Oompa Loompas são penduradas como máquinas e forçadas a trabalhar para a Vigia, uma velha senhora-aranha de seis braços. O laranja vibrante do deserto dá lugar a um azul-escuro sombrio, e a sensação de decadência aumenta à medida que descemos aos porões da fábrica, repletos de ratos, doces podres e trabalhadores exaustos.

A terceira fase, o Carnaval, foi amplamente explorada nas campanhas promocionais, o que me fez temer já ter visto tudo. Felizmente, eu estava enganado. Começamos nos arredores de um circo, com luzes e atrações ao fundo, mas logo somos levados aos bastidores macabros: sujeira, gore, zumbis famintos por restos e um zelador grotesco com seu mascote demoníaco. É a fase mais longa e variada, alternando entre perseguições, combates e puzzles bem elaborados, que usam o cenário de forma criativa. Como uma montanha-russa, ela nos leva do riso ao pavor.
A fase final, sem entrar em spoilers, é visualmente menos interessante, mas apresenta uma nova mecânica de alteração de cenário. Contudo, também é a mais curta e fácil. Depois da intensidade do Carnaval, acaba decepcionando um pouco. A mecânica inédita poderia ter sido mais explorada em momentos de tensão, como perseguições ou lutas contra chefes. Ainda assim, o inimigo final tem um design incrível e o desfecho da história é, sem estragar a surpresa, ótimo e vai fazer muita gente chorar.
Design de som e Atmosfera

Algo que a franquia Little Nightmares sempre dominou foi a criação de atmosferas. Desde o primeiro título, o uso do design de som imersivo faz o jogador imaginar as coisas horrendas que acontecem fora do enquadramento, integrando gameplay e narrativa.
Em Little Nightmares III, há momentos em que conseguimos ouvir a respiração pesada do nosso perseguidor ecoando por entre os tubos de esgoto, aproximando-se, tentando ser furtivo, mas causando estragos pelo caminho, tudo para nos capturar. É tenso, claustrofóbico e perfeito para a proposta do jogo.
Por não contar com diálogos convencionais, os personagens falam em um idioma próprio, o jogo aposta na entonação dos sons emitidos pelos protagonistas. Quando chamamos o outro jogador, o tom inicial é leve, mas, se a resposta demora, a voz se torna mais desesperada e alta. Esse recurso funciona ainda melhor nas cutscenes, nas quais cada som carrega um peso narrativo maior.
Jogabilidade

A jogabilidade mantém a essência dos títulos anteriores: puzzles que exigem atenção ao cenário e muita furtividade. A novidade é o combate em dupla, que aparece em momentos pontuais, mas adiciona tensão. Low usa seu arco para atordoar inimigos à distância, enquanto Alone finaliza com sua chave de fenda. Esses trechos acontecem em áreas fechadas, exigindo coordenação, estratégia e sangue-frio para fazer tudo fluir.
Outro diferencial é o modo cooperativo, uma estreia na franquia. O jogo foi claramente projetado para ser jogado em dupla, com muitos puzzles e sequências de fuga que exigem sincronia e atenção. A divisão de habilidades é intuitiva: Low lida com alvos e objetos distantes; Alone, com obstáculos próximos e interações físicas.
Para quem joga sozinho, como foi meu caso, a experiência continua excelente. Você escolhe qual personagem controlar e a IA assume o outro. E aqui vai um elogio: a inteligência artificial é ótima. Em nenhum momento atrapalha a jogabilidade; pelo contrário, às vezes ela é boa demais, em alguns puzzles ela até revelou dicas antes da hora, o que pode ser um inconveniente para quem gosta de descobrir tudo sozinho.
Vale a Pena jogar Little Nightmares 3?

Se você busca uma BOA experiência cooperativa de terror, ou só um grande jogo de terror com uma ótima história, Little Nightmares III é para você. A Supermassive Games não reinventa a fórmula, mas entrega uma experiência sólida, que deve agradar tanto aos fãs antigos da série quanto aos novos jogadores. A Espiral, cenário deste capítulo, é uma adição importantíssima à lore de Lugar Nenhum e, com as DLCs já confirmadas, tende a expandir a franquia para horizontes ainda mais ambiciosos.
Quanto ao gameplay, a adição do combate é interessante e bem balanceada, sem comprometer a tensão nem a sensação de impotência diante das grandes criaturas que consagraram a série. Porém, é pouco explorada ao longo do jogo. O design das fases é soberbo e claramente pensado para o co-op, com puzzles que exigem trabalho em equipe e boa comunicação, fazendo do game um dos grandes jogos de 2025. Para os jogadores solo, não se preocupem: a IA é realmente competente, e a experiência não perde em qualidade.
Esse review de Little Nightmares 3 foi produzido através de uma chave de review do game para PS5, gentilmente cedida pela Bandai Namco
O Review
Little Nightmares 3
Little Nightmares III é um ótimo jogo de terror e aventura, que te faz pensar sobre os terrores reais enquanto te impressiona com visuais criativos. O cooperativo, os novos cenários e os protagonistas carismáticos engrandecem e abrem caminho para um futuro muito promissor para a franquia!
PRÓS
- História muito boa
- Atmosfera tenebrosa
- Cenários marcantes
- Low e Alone são incríveis
- As novas criaturas com visuais espetaculares
- Puzzles bem balanceados
CONTRAS
- Combate pouco aproveitado
- Fase final deixa a desejar






