Desenvolvido pela Team Ninja e publicado pela Koei tecmo, Nioh 3 foi anunciado meio que “do nada” em junho do ano passado, com a premissa de continuar a franquia de ação que tem deixado de cabelo em pé até os jogadores mais habilidosos nos últimos anos.
Algo que transpareceu com as novas informações e trailer divulgados pela Koei durante os meses foi o quão confiante a Team Ninja estava com o terceiro jogo da franquia. Esse sentimento se intensificou após o lançamento da demo gratuita, que deixou o público ciente de que o combate agressivo e veloz de Nioh estava de volta e mais feroz do que nunca, assim como os inimigos desafiantes que obrigam o jogador pensar antes de atacar, e claro, o retorno do sistema de habilidades especiais pra lá de robusto (que Nioh 2 já tinha elevado com maestria). A questão que ficava a cada novo trailer divulgado era uma só: Como Nioh 3 vai se diferenciar dos outros dois jogos da franquia?
Tive a oportunidade de jogar o game antecipado, e finalmente tenho as respostas para essa e outras perguntas que surgiram durante a campanha de marketing do game! Mas uma coisa já posso adiantar: Nioh 3 não só se diferencia dos jogos anteriores, como também supera todos eles.
O histórico da Franquia

Acompanhar a franquia Nioh tem sido uma jornada interessante, um jogo que surgiu como um sucessor espiritual de Ninja Gaiden e que, após anos de um desenvolvimento conturbado, nasceu como um dos primeiros bons soulslikes já feitos com uma dificuldade elevada, um protagonista marcante (apesar das pouquíssimas falas) e chefes iradíssimos. Por mais que o combate frenético e o foco na raridade dos loots tenham sido pontos importantes da experiência do primeiro jogo, ainda era um processo difícil de se diferenciar do que a From Software estava fazendo com os seus “Souls” na época. O que a Team Ninja poderia fazer para se diferenciar do gênero “souls like”? Simples, elevando todos esses pontos únicos em sua sequência, Nioh 2.
Nioh 2 evolui basicamente todos os pontos positivos do jogo anterior, como por exemplo o combate difícil e frenético ficou ainda mais tático com adições como a possibilidade de se transformar em Yokais para ganhar habilidades diferentes que mudam completamente as possibilidades de builds que podemos construir, a introdução da mecânica de purificar a alma de Yokais derrotados para transformar em itens com habilidades especiais e a substituição de um personagem criado pelos desenvolvedores pela criação de personagens dos jogadores também deram um toque especial para a franquia. Mudanças que foram muito importantes para firmar (ainda mais) Nioh como uma franquia própria, diferentes das milhares de outros jogos inspirados pelos “Souls” que começaram a sair no mesmo período.
Mesmo não sendo parte da franquia Nioh, e sendo uma ovelha negra da família, Rise of the Ronin merece ser mencionado, pois é talvez o jogo que mais influenciou Nioh 3, com a premissa de ser basicamente um Nioh em um mundo aberto mais focado no realismo, sem demônios japoneses vagando pelo mundo, habilidades com espíritos de animais e outros elementos folclóricos e ficcionais. Em Rise of the Ronin, muitas das críticas pontuaram a repetição nas atividades do mundo aberto, com um mapa cheio de pontos de interesse para limpar e que acabam se tornando maçantes depois de um tempo de jogo. Porém, ainda era possível ver lapsos de boas ideias e momentos genuinamente divertidos que, se bem lapidados, poderiam resultar em um mundo aberto incrível no futuro.
Para a nossa felicidade, Nioh 3 é justamente essa lapidação do que foi feito em Rise of the Ronin e de quase todos os aspectos positivos dos games anteriores da franquia Nioh, sendo um grande mix de tudo que deu certo no passado recente da Koei Tecmo.
A história de Nioh 3

Em Nioh 3, controlamos Tokugawa Takechiyo, o neto da figura histórica Tokugawa Leyasu, em uma jornada para poder suceder o trono que lhe foi tirado pelo seu irmão mais novo, Tokugawa Kunimatsu, uma traição que não só balançou a liderança de Tokugawa, como também abriu uma fenda para que os Yokais pudessem voltar com mais força para a Terra. Takechiyo, desnorteado após a traição de seu irmão mais novo, acaba acessando um poder ancestral que faz com que ele viaje por diferentes eras do Japão que foram corrompidas pela mesma fenda de Yokais. Com a ajuda de figuras históricas, como Hattori Hanzo e Minamoto no Yoshitsune, Takechiyo precisa fechar essas fendas e trazer de volta o controle para si.
Mesmo não sendo fã de histórias que envolvam viagens no tempo, fiquei impressionado com a premissa de Nioh 3, pois é evidente o foco em homenagear a história do Japão, adicionando três períodos diferentes (Sengoku, Heian e Bakumatsu) e figuras históricas que participaram desses momentos da história Japonesa. Isso se torna ainda mais evidente quando chegamos em locais que futuramente vão se tornar pontos marcantes do Japão, como Quioto, algo que Nioh 3 faz questão de te deixar ciente do quão importante é aquela região. Também é possível ver a importância desses períodos históricos pela atenção de detalhes que é dada a cada facção/grupo diferente que enfrentamos na história principal e no mundo aberto.

No período Heian (794 – 1185) vemos uma grande presença do misticismo nas vilas que exploramos e na forma como alguns chefes principais se comunicam, é um Japão mais antigo onde as armaduras são menos elaboradas, com muitos inimigos magos que usam roupas de pano como vestes. Já no período Sengoku (1467 – 1615) conseguimos ver mais a influência da guerra nos cenários, nas armaduras (que agora já são mais elaboradas e resistentes) e, principalmente, nos personagens principais: Durante esse período há medo na forma como alguns NPCs relatam suas histórias que, por causa da guerra, acabaram se tornando tragédias. Enquanto isso, generais morrem abraçados no orgulho de servir em batalha.
Ok, Nioh 3 acertou muito na forma como cada período histórico é usado tanto na história quanto no mundo aberto, mas e a história em si? É… A campanha principal por muitas vezes acaba sendo convoluta demais, com muitos elementos e exposições que acabam atrapalhando a fluidez na linha principal da narrativa. Por muitos momentos eu só torcia para o diálogo acabar para poder voltar a curtir a ação, visto que a partir de um certo ponto os personagens acabam se repetindo e falando coisas que já havia sido estabelecido a três blocos de diálogos atrás.

Por mais que a intenção de manter a personalização de Nioh 2 seja louvável, por ser algo que os fãs abraçaram, é estranho ter um personagem personalizado quando a história não tem escolhas ou te trata como um personagem de verdade daquele mundo, sendo parente de uma figura histórica real e com um destino já definido pelos desenvolvedores. E o pior é o personagem não ter opções de fala, e nem de fato ser um avatar do jogador, ficando com cara de paisagem em 90% das cenas em que ele aparece, chegando a ser cômico em muitos momentos, E sim, sei que Williams, o protagonista do primeiro jogo, também era um personagem pré-definido pelos desenvolvedores e agia da mesma forma, mas a ausência de personalização de personagens tornava mais fácil de relevar essas coisas.
Em resumo, em questão histórica, Nioh 3 é incrível, porém peca muito na escrita da história principal e na decisão de tornar um personagem com uma narrativa pré-definida em um personagem personalizável sem personalidade nenhuma. Porém, esses dois pontos negativos pouco afetam a ótima adição que o mundo aberto de Nioh 3 trouxe para franquia, que é onde o game REALMENTE brilha.
Um mundo aberto de respeito!

Pode parecer uma frase forte essa que vou falar agora, mas o primeiro ato de Nioh 3 foi o mais perto que já tive de reviver a experiência de jogar Elden Ring pela primeira vez no lançamento, e isso é lindo. Aquela mistura entre a beleza das paisagens com a destruição causada pelos Yokai, aquela sensação de aventura que te acompanha do início ao fim do ato 1 e os inimigos fortes o suficiente para te fazerem explorar o mapa por recursos para poder finalmente chegar ao nível deles, é perfeito!
Nioh 3 abandonou a estrutura de fases dos jogos anteriores anteriores e abraçou a ideia de mapas abertos onde o jogador é livre para decidir quais missões fazer primeiro, e se não estiver afim de prosseguir com a história principal, simplesmente explorar os mapas a procura por recursos e itens que vão ser relevantes mais adiante na aventura. O melhor de tudo é perceber o quanto eles aprenderam com os erros de Rise of the Ronin, selecionando a dedo cada missão opcional que o jogador pode fazer e preenchendo o mapa com pequenas atividades secundárias que aprimoram o nosso personagem e, na maioria das vezes, te leva para uma área não explorada no mapa com novos itens e chefes secundários épicos.

Falando em recursos, Nioh 3 segue sendo um jogo cheio de loot, o que para um mundo aberto poderia ser um defeito pois, em muitos casos, o excesso de loot acaba deixando o jogador sem “fome de exploração” por melhores itens, visto que depois de algumas horas você já se acostuma com os itens brilhantes aparecendo na tela aos montes. Felizmente, Nioh 3 consegue te manter interessado em buscar equipamentos melhores a todo o tempo, talvez num cantinho suspeito que o jogo te apresentou ou até mesmo no Yokai gigante que fica caminhando pelo mapa, o game continua te atiçando a explorar cada cantinho dos mapas em busca de itens e equipamentos mais fortes.
Vale destacar que Nioh 3 não possui apenas um mapa, já que conforme prosseguimos na campanha, outros dois mapas serão desbloqueados, cada um em um período histórico diferente, sendo o primeiro no Período Sengoku, o maior mapa do jogo. Mesmo sendo o maior, o primeiro mapa em nenhum momento fica maçante, ele é grande, mas não gigante. A forma como as rotas e planícies foram desenvolvidas é impressionante, você sempre consegue ver o próximo lugar para explorar e todas as rotas acabam se interligando, dependendo apenas do jogador para abrir os atalhos.

A única ressalva sobre esses mapas abertos é que parece que deram tanta atenção ao primeiro mapa que os outros acabaram ficando de lado em questão de atividades secundárias, sendo mapas bem mais lineares do que o primeiro inclusive. Até mesmo a otimização dos últimos dois mapas acabou sofrendo dessa falta de atenção, sendo o segundo mapa o lugar que mais presenciei quedas de FPS bruscas no jogo.
No geral, confesso que fiquei surpreso com o quão bom esse mundo/mapa aberto é e em como Nioh 3 é extremamente viciante graças a junção desse mundo aberto com o combate melhor.
A dualidade de Takechiyo

Além do mapa aberto e o fim do formato antigo de missões, Nioh 3 tem como diferencial a adição de dois modos diferentes de combate: O Samurai e o Ninja, ambos com as suas especificidades que são de extrema importância para a luta contra chefes mais avançados.
O samurai segue a receita de bolo dos jogos anteriores: temos que estar sempre atento a barra de stamina e focar em tentar canalizar o máximo de Ki possível para que a barra encha de novo para poder continuar realizando combos nos inimigos. A grande fiferença em Nioh 3 é que começamos com apenas a postura média desbloqueada, fazendo com que o jogador tenha que procurar pontos de samurai (que vem em forma de item) pelo mapa para liberar as outras posturas na árvore de habilidades de Samurai.
Nessa mesma árvore podemos liberar habilidades novas para cada tipo de arma do jogo, aumentando as possibilidades na hora dos combos, e também para o estilo Samurai e o Ninja.

O Ninja é a forma nova de se jogar Nioh. Com ele não conseguimos canalizar o ki para restaurar stamina (ou destruir fontes de energia dos Yokai) como nos jogos anteriores, mas gastamos menos stamina, somos mais velozes e podemos contar com os ninjutsu para lidar com momentos de sufoco. É um estilo ideal para invadir bases inimigas na furtividade, apesar de ser muito difícil concluir uma base inteira no modo furtivo visto que os inimigos por vezes conseguem resistir a mais de um ataque furtivo.
Por gastar menos stamina e dar mais ataques rápidos, é essencial saber o momento para trocar de samurai para ninja no meio das lutas. O Samurai causa mais dano e é mais resistente aos ataques inimigos, porém o Ninja consegue aniquilar a barra de energia dos chefes com muita velocidade, abrindo brechas para ataques críticos. Dominar a troca de estilos em momentos críticos, como quando inimigos vão dar ataques indefensáveis (aqueles com a aura vermelha), se torna crucial para o loop de gameplay, sendo o principal fator que irá determinar o quanto você irá sofrer nos chefes mais difíceis.
Sim, jogue Nioh 3
Nioh 3 surge como uma grata surpresa com seu combate ainda mais refinado, com a adição dos dois estilos de combate que pode ser trocados a qualquer momento, e mapas abertos muito bem desenvolvidos e viciantes de serem explorados, diria que Nioh 3 é uma experiência necessária para fãs de jogos de ação e que a Team Ninja conseguiu lançar o melhor Nioh de todos.
O Review
Nioh 3
Apesar de ser sequência de uma franquia já popular, Nioh 3 surge como uma grata surpresa ao trazer mecânicas de combate extremamente refinadas, mapas abertos muito bem desenvolvidos e convidativos a exploração, sendo uma experiência necessária para fãs de jogos de ação.
PRÓS
- Ótimas lutas de chefe
- Mapas abertos divertidos de serem explorados
- Um dos melhores sistemas de combates da atualidade
- Apesar da dificuldade, é um jogo recompensador na medida certa
CONTRAS
- Muita queda de FPS depois do segundo ato
- Sistema de personalização de personagem ainda muito antiquado
- História por vezes confusa demais






