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Análise (HQ) | O Corvo, Edição Definitiva

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Após ter sua vida completamente abalada por uma fatalidade, James O’Barr precisava de uma veia de escape para todos os sentimentos conflituosos que passaram a povoar sua mente. A sensação de culpa e impotência o oprimiram impiedosamente e a única veia de escape que encontrou para dar vazão a todo a sua dor e sofrimento, acabou por se tornar o clássico dos quadrinhos independentes mais significativo dos anos 80 e 90, cuja influência reverbera até os dias atuais. Uma obra tão visceral e subjetiva, que é quase impossível separar a imagem do criador e da criatura.

Após muita especulação sobre o que teria inspirado O’Barr a escrever e desenhar O Corvo, o próprio autor, em um texto introdutório à edição definitiva publicada no Brasil pela DarkSide diz que “a menina que era Shelly” foi a vítima de um dos cruéis acasos da vida. Em sua inconsequente adolescência, O’Barr não teria pago os impostos do seu carro, que poderia ser apreendido pela polícia, de modo que telefonou para “a menina que era Shelly” e pediu para que ela fosse buscá-lo. “…foi um daqueles momentos fatídicos em que vida vira de cabeça para baixo sem motivo algum… uma série de escolhas que tropeçam, caem que nem dominós e terminam em consequências irreversíveis…” quando ela veio buscá-lo, um motorista bêbado a atropelou, e “a menina que era Shelly” morreu na hora. O sentimento de culpa foi avassalador para O’Barr, que a partir de então, nunca mais seria o mesmo.

Tive a esperança de que, se botasse toda a minha fúria assassina no nanquim e no papel, de algum jeito, por mágica, toda a dor, toda a mágoa e toda a tendência autodestrutiva que se seguiu iam virar fumaça…

O Corvo conta a história de Erick, que levava uma vida tranquila com Shelly, sua noiva. Em uma viagem casual de volta para casa, o carro em que viajavam quebra e eles ficam presos no meio da rodovia. O que parecia ser um acidente casual, que tomaria poucas horas da vida de Erick e Shelly, se tornou um evento que consumiria sua alma, e o atormentaria dia e noite como um pesadelo que não tem fim. Por um dos inexplicáveis acasos da vida, uma gangue de drogados fortemente armados aborda seu veículo, e o caos toma conta. Esse bando “mata” Erick com um tiro na cabeça, violentam e assassinam sua noiva a sangue frio, só por diversão. Porém ele não estava morto, viu tudo acontecer bem diante dos seus olhos, e incapaz de reagir, chorou.

Após uma dura recuperação, Erick renasce como O Corvo, que memorizou o nome de cada um dos assassinos da sua noiva, e a partir de então, parte em direção ao único caminho possível: uma jornada de dor, vingança e redenção que trará a paz que sua alma tanto anseia. Um rastro de sangue e agonia seguirá os passos do Corvo ao longo do seu caminho…

A Morte não é o fim para quem deseja vingança!

A jornada criativa de O’Barr foi pavimentada por artistas que, por intermédio das suas palavras e furiosos acordes de guitarra pareciam saber exatamente o que ele sentia nos momentos mais conturbados da sua vida. O Corvo, apesar de ser uma obra absolutamente pessoal para ele, foi inspirado por músicos como Joy Division e The Cure, além de escritores como Charles Boudelaire, que parafraseando o autor: “…lhe deram coragem para explorar as trevas…”

A produção de toda a obra foi completamente artesanal, inclusive o letreiramento, sem o uso de qualquer artificio tecnológico além de papel, lápis e nanquim. O’Barr foi um autodidata, criando seu próprio estilo de narrativa gráfica e desenho, de modo que a evolução da história segue uma constante crescente, onde podemos acompanhar a viagem de aprendizado do autor através de uma grande variação no estilo dos traços uso de sombras e na própria narrativa gráfica.

Na Edição Definitiva de O Corvo, impecavelmente publicada no Brasil pela DarkSide, com uma belíssima arte de capa que captura com precisão o clima sombrio e violento da obra, James O’Barr redesenha alguns trechos da história, e acrescenta alguns outros. Segundo ele, por não ter a habilidade necessária para fazê-lo nas primeiras edições do seu trabalho, e como leitor de primeira viagem, posso assegurar que a despeito disso, a história evolui de maneira espetacular, com um clima de tensão crescente que culmina em um final justo, e muito bem amarrado ao todo.

Apesar de todo o sucesso alcançado ao redor do mundo, e mesmo depois de diversas adaptações para outras mídias (Cinemas, Jogos e TV), nada consegue se quer chegar perto dos sentimentos e aflições que a obra original de O’Barr desperta no leitor. O Corvo continua sendo um quadrinho originalmente independente, imersivo, com características unicamente permitidas a HQs essencialmente undergrounds, sujas e ousadas, que muito pouco se preocupam com a recepção do grande público.  Com um excelente enredo, associado a uma arte inicialmente amadora em constante evolução, sempre dura e subjetiva, O’Barr foi capaz de se conectar com o leitor em vários níveis, muitas vezes servindo de apoio para pessoas, que como ele, ao ouvir Joy Division e ler Baudelaire, descobriram que não estavam sozinhas no mundo.

O Corvo, com toda a sua crueza e introspecção, é uma verdadeira obra de arte, um espelho onde os mais obscuros sentimentos humanos se refletem. Sua leitura é absolutamente indispensável e recomendada para todos os amantes da nona arte.

Publicado em 11 de agosto de 2018 às 00:13h.
2018-08-11 00:13:47