Scott Pilgrim é um fenômeno cultural. Nascido a partir de uma HQ lançada no auge dos anos 2000, Scott Pilgrim é uma história quase perfeita, com um desenvolvimento de personagens excelente e uma carta de amor à cultura pop, recheado de referências e inspirações em filmes, gibis e games que foram um verdadeiro marco daquela década.
Devido ao grande sucesso, não tardou para que dali nascesse um grande universo midiático. Começando com uma adaptação em filme do diretor Edgar Wright que foi muito bem recebida, já tivemos um game de Scott Pilgrim feito pela Ubisoft, e mais recentemente, uma animação nova contando uma história original, Scott Pilgrim Takes Off, pela Netflix.

Mas a franquia não parou aí! Após o sucesso do anime, mais uma adaptação em games foi anunciada, Scott Pilgrim EX, dessa vez pela Tribute Games, já responsável pelos beat ‘em up Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge e Marvel Cosmic Invasion. Com lançamento agendado para ainda hoje, no dia 3 de Março, para PlayStation, Xbox Series, Nintendo Switch e PC! Tive a oportunidade de conferir a nova aventura de Scott em antecipado, e trago em detalhes tudo sobre Scott Pilgrim EX nessa análise completa do game!
Caos completo em Toronto
Como era de se esperar, Scott Pilgrim EX é um beat ‘em up, a julgar pelo histórico da desenvolvedora e até mesmo pelo jogo anterior do universo, mas devo dizer que aqui ele está em sua melhor forma, e mesmo que muitos jogos do gênero sejam vistos como “repetitivos”, acho que Scott Pilgrim EX acaba sendo um dos mais originais que vimos nos lançamentos modernos!

Se você já jogou qualquer jogo nesse estilo, nada aqui é exatamente novidade, mas o básico, felizmente, é muito bem feito. Com opção de golpe básico e forte, além de agarrar os personagens, Scott Pilgrim EX é porradaria do começo ao fim, e é nesse caos que mora a diversão do game.
Além dessas opções mais básicas, ainda há armas(e muitas) espalhadas pelos cenários, que além de serem adquiridas, podem ser golpeadas e lançadas a frente, que também derrubam os inimigos, que podem bater em mais armas, gerando um efeito dominó bastante interessante e que muitas vezes te salva dos apertos na hora certa, mas que também pode sair pela culatra e lhe causar dano.

Muitos personagens jogáveis, e ainda mais assistentes
Outra coisa chamativa são as assistências e golpes especiais, que contam com a participação de diversos personagens secundários fazendo algum golpe ou dão um bônus específico, e também é um jeito de colocar todo esse universo junto sem deixar ninguém de fora, já que os personagens jogáveis são um número limitado.
E por falar nestes, Scott Pilgrim EX também não economiza. Contando com 7 personagens jogáveis, que incluem Scott, Ramona e alguns de seus ex, como Matthew Patel e Lucas Lee, além de Robot-01, o robozinho amado que fez sua estreia no gibi e também teve uma participação gigante no anime mais recente, tendo opção para todos os gostos e com golpes bastante diversos entre si.

Com a opção de jogar solo ou cooperativamente em até 4 jogadores, a diversão e a bagunça se multiplicam ao jogar com amigos, e parece que o jogo, em todos os aspectos, foi feito pensado exclusivamente no modo multijogador, já que alguns momentos o jogo fica realmente difícil de lidar jogando sozinho, mesmo na dificuldade padrão do game.
Um Smash Bros. de Scott Pilgrim
Um dos grandes chamativos de Scott Pilgrim EX, no entanto, é toda essa mistura, quase que uma forma “comemorativa” da franquia. Está cheio de personagens diversos em todo o mapa, além de sutis e explícitas referências daquela época, refletindo o ícone que Scott Pilgrim foi, e tudo aqui está muito bem naturalizado dentro da Toronto fictícia do game, sem parecer forçado nem como se fosse um grande espetáculo.

Apesar disso, senti falta de algum modo livre para jogar com outros personagens, já que só há a possibilidade de jogar o “modo história” no qual não podemos trocar de personagem sem reiniciar a história, o que é uma decisão estranha e eu tenho quase certeza que será alterado em alguma atualização futura, mas no momento, infelizmente isso não é possível.
Uma coisa interessante de Scott Pilgrim EX é que o jogo não funciona por fases, e sim em um mapa aberto no qual temos que ir de um lado para o outro cumprindo objetivos, com até alguns “mini-games” totalmente opcionais, o que faz com que a exploração do mapa também colabore na experiência, embora algumas dessas atividades secundárias sejam bem pouco diversas e todas sejam focadas no combate do título.

Felizmente, o jogo não cai no repetitivo
O sistema RPG também está presente aqui, tal qual no primeiro game da série. Além de equipar acessórios que aumentam seus atributos, podemos obter novas assistências, com novos personagens, e outros itens que dão habilidades bem específicas para o jogador, sem contar que também podemos comer e comprar itens consumíveis, que não só recarregam as energias como também aumentam atributos de forma independente, então quase nunca acumulamos muito dinheiro, afinal gastar tudo para ficar mais forte é muito mais interessante.
E apesar desse sistema, devo dizer que o jogo não fica repetitivo em momento algum, ao menos levando em conta a duração dele, que é um pouquinho mais longa que o normal. Os inimigos tem comportamentos muito distintos entre si, e cada um deve ser enfrentado de alguma maneira específica, sem ser “tudo a mesma coisa”, além dos clãs dos Veganos, Demônios e Robôs que permeiam regiões diferentes da cidade e também atacam de formas diferentes, sem contar com a imensa variedade de armas e itens arremessáveis que igualmente populam todas as arenas de combate.

Apesar disso, devo dizer que um dos grandes destaques de Scott Pilgrim EX são os chefes. São muitos, muito variados e muito desafiadores, sendo eles releituras de personagens clássicos, ou até personagens novos, e alguns me custaram umas boas vidas e tentativas novas, com ataques diferentes e que requerem muito mais do jogador do que só “esmagar botão”, o que é um pedido e tanto para um beat ‘em up relativamente simples.
História original pelo criador da HQ
Narrativamente, Scott Pilgrim EX também é uma boa pedida, embora não perfeita. Com uma nova história escrita pelo criador da HQ, Brian Lee O’Malley, o jogo é uma bagunça(no bom sentido, vai) de conceitos e uma brincadeira com a própria série. Dita como uma “sequência não-oficial” do anime, a história é descrita pelo próprio Brian como algo separado de qualquer outra obra, sendo perfeitamente independente.

Não se engane com isso, porém, pois o jogo já presume que você seja um fã da obra e já conheça a obra original, afinal nada aqui tem alguma grande explicação e tudo simplesmente ocorre, sem mais, além das diversas referências à eventos ocorridos na HQ e no anime, incluindo algumas seções que são praticamente uma recontagem de alguns arcos importantíssimos do gibi. Ou seja, é uma obra feita para os fãs e quem já entende a “vibe” de Scott Pilgrim, mas não espere grandes revelações ou conexões diretas com obras já lançadas, sendo mais uma expansão generalizada da mitologia da franquia.
Como era de se esperar, é verdade que o jogo não é um primor narrativo, e apesar de interações bacanas entre os NPCs e diversos acenos que Scott Pilgrim EX faz, não tem nenhuma grande trama profundamente bem-escrita e nem um desenvolvimento de personagens absurdo, o que talvez não seja novidade pra ninguém, mas o importante é que tudo é funcional e divertido.

Cenários do Gênesis ao Apocalipse
É verdade que eu estava até esperando que o jogo desse uma pincelada melhor nisso, afinal a HQ tem alguns dos melhores desenvolvimentos de personagens já feitos com essa mídia e que indiretamente envolve até o seu público fã de cultura pop, mas como dito anteriormente, é instigante e legal o suficiente, com novos personagens e arcos que se seguram sozinhos mesmo em um título com esse aspecto mais “comemorativo”.
O aspecto artístico de Scott Pilgrim EX também é bem legal, com aquele pixel art que além de nostálgico, consegue traduzir bem o estilo das HQs nos personagens e nos cenários, sendo um jogo bastante brilhante e “explosivo” nesse aspecto, além de efeitos visuais bastante bacanas e até mesmo “fora da curva” em alguns momentos.

Os cenários então, são ainda mais singulares. Ainda é Toronto, mas após alguns eventos da história, tem um verdadeiro multiverso de coisas, desde uma era do gelo, um castelo vampiresco lotado por góticos e demônios, uma fábrica de robôs e um mundo medieval, dentre tantas outras coisas, e tudo isso, por incrível que pareça, combina muito bem com a vibe de Scott Pilgrim e deixa o jogo ainda mais diverso e surpreendente.
Não é perfeito, mas chega perto
No quesito sonoro, é um ponto altíssimo novamente. A banda Anamanaguchi, que mistura rock com efeitos sonoros de chips de videogame antigos, já participou do primeiro game e do anime, e está aqui de volta, em uma das melhores participações da banda, com músicas que encaixam perfeitamente nos cenários e missões e que fogem do “padrão videogame” pelo qual a banda é famosa, o que, combinado com os efeitos da porradaria, deixa o jogo ainda melhor, e essa foi uma das maiores surpresas que tive ao jogá-lo, sem dúvidas.

Com localização completa em português brasileiro, o jogo é uma pedida perfeita para os fãs de um beat ‘em up cooperativo diferente, caótico e divertido, mas sem dúvida alguma, é um presente para os fãs de Scott Pilgrim, sendo quase uma festa completa representando tudo que a HQ e suas adaptações trouxeram de melhor para a cultura pop.
É verdade que temos alguns deslizes, especialmente técnicos e de game design, mas no geral, Scott Pilgrim EX é um jogo altamente divertido e que, mesmo que não tenha uma narrativa muito profunda como a participação do criador original poderia dar a entender, vale muito a pena para quem está com saudades dessa Toronto bizarra ou só quer ver os personagens de Scott Pilgrim exalando carisma novamente.
O Review
Scott Pilgrim EX
Quase um jogo comemorativo da franquia, Scott Pilgrim EX entrega um beat 'em up de alta qualidade e com foco alto na diversão, encapsulando diversos aspectos da obra original e da cultura pop como um todo em um título muito divertido e bastante variado.
PRÓS
- Jogabilidade funcional, divertida e caótica
- Cenários muito diversos, sem se limitar a Toronto
- Diversas opções de personagens jogáveis e assistências
- Inimigos bastante variados, e quantia enorme de chefes
- Trilha sonora muito boa e completamente encaixada em suas respectivas missões
- Diversas referências à cultura pop da época
- Opção de até 4 jogadores ao mesmo tempo
- Localização completa em português brasileiro
CONTRAS
- História não tem muito desenvolvimento de personagem, diferente de outras obras da série
- Jogo bastante desafiador no modo solo, sendo um jogo focado no cooperativo
- Não há um sistema de jogar e experimentar outros personagens livremente






