Lá pelos antigos tempos de 2022, Silent Hill era considerada uma franquia acabada há muitos anos. E mesmo que os fãs já estivessem perdendo quase todas as esperanças de ver a franquia em voga novamente, a Konami surpreendeu: com o anúncio da Silent Hill Transmission, um evento focado em diversos projetos diferentes da franquia, foi praticamente marcado o retorno da franquia que, de alguma forma, estaria entre nós de volta.
Mas, se dentre os 5 projetos anunciados na época, o remake do segundo game foi o que mais elevou o hype dos fãs, o que mais me chamou a atenção foi o singelo teaser de Silent Hill f, o novo projeto principal e original para a saga, que ia dar um 180º em tudo que havia sido feito até então, nos levando pra longe da cidade de mesmo nome e perto da vila japonesa de Ebisugaoka, na década de 1960.
No entanto, após muito aguardar, e já tendo visto outros projetos darem um novo ar para a série, tivemos o lançamento de Silent Hill f. Saindo no dia 25 de setembro para PS5, PC e Xbox Series, o jogo desenvolvido pelo estúdio HexaDrive com a publicação da Konami vem para revitalizar a franquia. A pergunta que fica é, ele conseguiu? E isso você consegue a resposta conosco!
De Silent Hill para Ebisugaoka

Como dito anteriormente, Silent Hill f se passa no pequeno vilarejo rural de Ebisugaoka, e é nele, de imediato, que conhecemos Hinako Shimizu, uma estudante de colégio que não se demora em mostrar seus problemas, especialmente familiares, ao jogador, e é nesse contexto, que pode ser muito bem identificado com o de qualquer jovem em sua idade, que o game se inicia.
Após algumas cenas de apresentação, a pacífica vila começa a ser tomada por forças malignas e aterrorizantes, isolando Shimizu de sua família e amigos, mas apesar de parecer, ela está longe de ser inofensiva, e não tardamos a estar no controle da protagonista para além de fugir, e sim tomando em armas para combater os sinistros monstros e aparições frente a frente.
O aspecto do combate(ou a falta dele) faz parte de um dos pilares centrais de qualquer survival horror, mas contrariando as raízes do gênero e da franquia, não contamos com nenhuma arma de fogo, e Shimizu deve se defender dos terrores com armas corpo a corpo, sejam elas facas, machados, e o mais icônico do título, o famoso cano de ferro.
Mudanças podem ser bem-vindas

Claro, é natural que os fãs mais puristas torçam o nariz para essa mudança, e desde os trailers essa preocupação cresceu muito entre a comunidade, mas devo dizer que, pra mim, a decisão foi em grande parte acertada. Sim, o combate em Silent Hill f é inegavelmente mais visceral e direto ao ponto, e às vezes foca até demais nesse aspecto, mas felizmente serviu muito bem com a proposta do game.
Pra começo de conversa, o combate funciona de forma relativamente simples, com opção de golpes leves e pesados, além da manutenção de esquivas e aparos(o famoso parry) para defletir golpes dos monstros, e considerando que todas essas ações gastam estamina, gerenciar esse recurso é altamente necessário, algo que, querendo ou não, lembra até os famosos “soulslike”, o que também chamou a atenção de alguns jogadores.
Mas, ao menos na minha experiência, parecendo ou não como os jogos da From Software, o combate funciona e é gostoso de usar. Claro, além desse básico, ainda temos artifícios diferenciados, como a mecânica de foco, essencial de se dominar no combate, além da possibilidade de equipar omamoris e aumentar o nível de suas habilidades, sem contar novas habilidades que são desbloqueadas mais à frente conforme o enredo se desenrola.
Aos fãs do puro medo e terror, cuidado

Verdade seja dita, algumas das seções subsequentes do game não são exatamente focadas na tensão e no sublime, e as guinadas para a ação podem não conversar bem com os fãs do terror mais íntimo e opressor, e embora faça sentido na narrativa e nas sensações diferentes que Silent Hill f quer transmitir ao jogador, é perfeitamente compreensível que isso chateie quem não enxerga em Silent Hill algo deste teor.
No entanto, é importante destacar o ótimo trabalho no quesito atmosfera, que é um verdadeiro show até mesmo quando o medo não está presente. Seja durante as seções no vilarejo, explorando o santuário ou até coisas um pouco mais inexplicáveis do que estas, a atmosfera pesada e o trabalho no quesito de “beleza”, conceito que carrega Silent Hill f, se faz muito presente e carrega o jogo até o fim.
Além de tudo isso, a dificuldade em f definitivamente respeita o jogador. Oferecendo as opções “Narrativo”, “Difícil” e “Perdido na Névoa” para combate e enigmas, o jogo se adapta ao nível de cada jogador, mas não se engane, pois a opção narrativa está longe de ser um passeio no parque, e apresenta seus desafios em ambos os aspectos. Vale dizer que, eu realmente recomendo que a opção mais fácil seja usada de início, e que as opções difíceis sejam usadas em próximas jogatinas – mais sobre isso abaixo -, dando uma progressão que parece o ideal que foi pensado pelos desenvolvedores.
Aqui é onde Silent Hill f mais brilha

Mas jogabilidade nunca foi o principal de um bom Silent Hill, certo? Se você concorda com isso, há algo para se animar pela frente: a narrativa do jogo é excelente e mostra o acerto da Konami em trazer o criador Ryukishi07 para elaborar e desenvolver o roteiro do game. Com fortes sustentações no contexto histórico do Japão acerca da repressão feminina na década de 60, o jogo explora de forma sublime os dilemas e terrores de Shimizu.
Uma coisa interessante de Silent Hill f é que o jogo não se demora nem esconde os seus pontos de crítica acerca da repressão feminina, e tanto Shimizu quanto as pessoas ao seu redor já de início se mostram como pontos importantes dessa dinâmica, mesmo que outros jogos da série sejam mais sutis nesse aspecto, f não esconde esse aspecto nem teme abordar temas sensíveis sem perder o mistério e o terror.
Se a temática principal não deixa de ser evidenciada com todos os holofotes, outros aspectos narrativos podem não ser tão claros assim, o que, em uma franquia como Silent Hill, é quase obrigação de quem roteiriza a aventura. Todo o desenrolar dos acontecimentos é envolto em um véu muito subjetivo e que dá vazão para diversas teorias e interpretações dos jogadores, o que engrandece ainda mais o título e favorece muito a sua estadia na memória dos jogadores.
Detalhes e mais detalhes

Mas não somente naquilo que é diretamente informado ao jogador que mora o enredo, pois há detalhes e pequenas coisas que engrandecem ainda mais a narrativa, desde notas e gravações de áudio que contam mais sobre o mundo e as problemáticas de Silent Hill f, como o diário de Shimizu, que detalha personagens e monstros com textos que evoluem conforme o tempo e dão aquele temperinho a mais para a narrativa.
Outros personagens que acompanham(ou não) a Shimizu também têm seu destaque, e mesmo que numa primeira impressão pareçam bastante arquetípicos e simplórios, conforme o enredo avança, o desenvolvimento do elenco e suas múltiplas facetas tomam forma, e cada um deles conquista afeição e repulsa do jogador em diferentes doses.8
Os múltiplos finais são algo praticamente onipresente quando se fala de Silent Hill, mas no geral, apenas uma jogatina é o suficiente pra pegar tudo que a história quer passar, mas com f, as coisas são diferentes: além do final padrão não entregar muitas respostas, novas campanhas irão não só abrir possibilidade de finais que entregam maior entendimento da narrativa como também contam com chefes, cutscenes e novas partes da história expandidas, o que aumenta muito o fator replay do título e impressiona por ser uma característica pouco presente em jogos de maior orçamento.
Beleza no terror

Claro, é compreensível que isso chateie as pessoas que só buscam zerar um game para partir logo para o próximo, mas é um diferencial que contraria muito as convenções da indústria e que definitivamente não é uma atitude que deveria passar em branco, recompensando e muito aqueles que realmente forem cativados pelas vielas belas e sinistras de Ebisugaoka.
O aspecto artístico de Silent Hill f deve ser obrigatoriamente de alto nível, afinal o grande conceito de “beleza dentro do terror” foi o que demarcou o início do marketing do jogo, e de acordo com os desenvolvedores, foi o princípio que guiou as fundações do que viria a ser o título, e nesse quesito, ele felizmente corresponde as expectativas.
Bebendo e muito da cultura e estética rural japonesa, o título é extremamente cativante em seus visuais, desde o design bastante simplista de Shimizu e seus colegas de escola, que também evolui a sua própria forma conforme o desenrolar da história, bem como os cenários, monstros, e tudo mais o que envolve o game.
Visuais entregam tudo e mais um pouco

Masahiro Ito, um dos maiores pilares da Team Silent, e responsável pelos designs mais icônicos da franquia, como o Pyramid Head, não está presente em f, mesmo trabalhando no remake de Silent Hill 2. No lugar dele, temos kera, um artista japonês que é o responsável por grande parte dos designs, e embora isso distancie o game ainda mais das raízes da saga, essa mudança acabou caindo como uma luva para o título.
Responsável majoritariamente pelos personagens, monstros e chefes, kera faz um trabalho primoroso e faz cada monstro ser extremamente marcante durante a jornada aterrorizante, e em especial, os chefes são uma obra de arte à parte, e mesmo que não haja uma quantidade gigante de bosses, cada um deles é extremamente belo e cheio de alma, dando ainda mais margem para interpretações acerca do que cada um representa e age para com Shimizu.
E novamente, a atenção aos detalhes aqui é mais um brilho que solidifica esse como um verdadeiro Silent Hill. Além da atenção aos detalhes visuais em cada cenário, até mesmo o diário de Shimizu, essencial para entender as diversas facetas de cada personagem e até mesmo para resolver os puzzles, está repleto de desenhos e rabiscos que exalam carisma, e é mais um ponto que chama ainda mais a atenção do jogador para que ele se atente ainda mais ao enredo.
Trilha sonora belíssima, mas…

Mas mesmo que Silent Hill f esteja repleto de “novatos” desenvolvendo um novo lado da franquia, Akira Yamaoka, o eterno compositor da franquia, volta em f para dar o ar da graça com suas belas composições. Sim, ele não erra, novamente entregando belas faixas que embalam e embelezam a trilha sonora, e dessa vez com um tom muito mais místico, folclórico e japonês, o que distoa do som mais urbano, industrial e inspirado no trip hop e na emblemática banda Nine Inch Nails.
Quer dizer que isso é ruim? Não necessariamente, afinal já vimos o quanto esse refresco ajudou e revitalizou a franquia, mas devo dizer que a trilha é menos marcante que as músicas dos jogos produzidos pela Team Silent, infelizmente. Claro, isso não quer dizer que elas sejam ruins ou que não são marcantes, mas com uma concorrência tão alta, no que pode ser considerado o ápice de Yamaoka em títulos passados, aqui acabou não fazendo jus ao histórico do compositor.
Contando com uma ótima localização em português brasileiro e com uma performance bastante decente no PC, Silent Hill f, além de ser uma ótima obra repleta de narrativa, nuance e atmosfera, também não decepciona no quesito técnico, mesmo que as opções de acessibilidade sejam relativamente básicas e nada de outro mundo, como mudança de controles e seleção de dificuldade para combate e enigmas.
Silent Hill f é a renovação que precisávamos

É compreensível que fãs mais puristas da saga podem torcer o nariz para Silent Hill f, afinal é um game que foge muito de muito que já foi estabelecido pelos desenvolvedores e adorado para os fãs, mas honestamente, com tantos títulos passados tentando emular a estrutura do segundo game, e até com um remake muito fiel e bem recebido, se inovar parece quase uma obrigação moral, especialmente se lembrar que a Team Silent, dos 4 primeiros jogos, nunca ficou em uma zona de conforto.
Silent Hill f pode não ser perfeito, mas sem dúvidas tem um carinho enorme envolvido e definitivamente possui uma narrativa que bate de frente com os maiores clássicos do terror, sem perder o toque subjetivo e altamente simbológico, e eu não tenho dúvidas de que no futuro esse jogo será um grande clássico e um exemplo de narrativa em obras de terror.
É importante lembrar que, assim como Silent Hill 2 em sua época, f tem sua parcela de crítica, que claro, não necessariamente está errada ou não tem razão, mas como todo bom clássico, é um jogo que com certeza irá envelhecer como vinho.
O Review
Silent Hill f
Silent Hill f pode não ser o maior sonho dos fãs mais tradicionais, mas sem dúvidas é um título que faz jus às constantes reinvenções da equipe original, com uma atmosfera opressiva, visuais belos e contrastantes, e uma narrativa digna de prêmios.
PRÓS
- Combate é funcional e visceral
- Atmosfera muito única e que agrega muito à obra
- Narrativa excepcional e repleta de simbolismos
- Designs que são marcantes e que não passam despercebidos
- Atenção altíssima aos detalhes
- Localização para o português brasileiro
CONTRAS
- Mudanças no combate podem não agradar os fãs mais tradicionais
- Trilha sonora é boa, mas por comparação, acabam sendo piores que as mais clássicas
- Narrativa completa só pode ser acessada após diversas jogatinas






