A franquia Yakuza (agora globalmente consolidada sob o nome Like a Dragon) atravessa o ano de 2025 em seu mais absoluto estado de graça. O que nasceu em 2005 no hardware do PlayStation 2 como um drama criminal de nicho, focado na honra e no submundo japonês, floresceu em um fenômeno cultural que hoje define o gênero de ação e aventura. Em 2016, para celebrar a primeira década da série, a Ryu Ga Gotoku Studio entregou o ambicioso projeto Yakuza Kiwami, que em japonês significa “Extremo”, reconstruindo o título original do zero na engine de Yakuza 0 para honrar o legado de Kazuma Kiryu.
Agora, em 2025, o ciclo se completa de forma nostálgica e tecnicamente primorosa. Para comemorar os 20 anos de história da franquia, Yakuza Kiwami finalmente desembarca no PlayStation 5, provando que a trágica e honrosa jornada de Kiryu não é apenas um registro histórico, mas uma narrativa atemporal que merece ser vivida com o poder do hardware atual. Retornar às ruas de Kamurocho nesta versão de Yakuza Kiwami não é apenas um exercício de nostalgia, é um reencontro com a essência de uma saga que ensinou aos jogadores o verdadeiro significado de sacrifício e redenção, agora sob o brilho definitivo da nova geração.
O Peso da Culpa e a Queda de um Irmão

A trama de Yakuza Kiwami é, acima de tudo, uma tragédia grega moderna ambientada no submundo japonês. Em 1995, somos apresentados a um Kazuma Kiryu no auge de sua ascensão, prestes a fundar sua própria família dentro do Clã Tojo. No entanto, sua lealdade é testada quando seu melhor amigo e irmão de juramento, Akira Nishikiyama, mata o patriarca Sohei Dojima para proteger Yumi Sawamura, o amor de infância de ambos, de um abuso. Em um ato de sacrifício supremo, Kiryu assume a culpa pelo crime, sendo expulso da organização e condenado a dez anos de prisão, tempo suficiente para que o mundo que ele conhecia se tornasse irreconhecível.
Ao retornar às ruas de Kamurocho em 2005, Kiryu é um homem sem família e sem propósito, até que o destino o coloca no centro de um furacão: dez bilhões de ienes desapareceram dos cofres do Clã Tojo, empurrando a organização para uma guerra civil sangrenta. É nesse cenário caótico que ele encontra Haruka, uma órfã de 8 anos que carrega um pingente misterioso e parece ser a única pista para o paradeiro de Yumi.
O “Nishiki” que não vimos no PS2
O grande triunfo desta versão de Yakuza Kiwami em relação ao original de 2005 são as cenas inéditas focadas em Nishikiyama. Através de flashbacks dolorosos entre os capítulos, o remake preenche as lacunas de sua transformação em um vilão frio e implacável. Vemos a agonia de Nishiki ao tentar gerenciar sua própria família enquanto lida com a doença terminal de sua irmã, Yuko, sendo humilhado por subordinados que não o respeitam e constantemente comparado ao “perfeito” Kiryu. Essas adições humanizam o antagonista, transformando o confronto final no topo da Millennium Tower em um momento muito mais trágico, pessoal e carregado de um peso emocional que o jogo original não conseguia transmitir plenamente.
A Cicatriz de Yakuza 0
Para quem vem de Yakuza 0, o impacto é ainda mais profundo. Yakuza Kiwami funciona como uma sequência direta e cruel; rever lugares como a pista de autorama (Pocket Circuit) ou ouvir músicas como “Tonight” no karaokê são golpes de nostalgia que lembram o jogador da fraternidade que um dia existiu entre os protagonistas. Pequenas referências e o retorno de personagens secundários de 1988 recompensam o jogador atento e consolidam a ideia de que cada ação no passado moldou o destino trágico desses personagens. É uma aula de narrativa que prova que, no mundo da Yakuza, a redenção tem um preço altíssimo e a honra é uma moeda que nem todos conseguem pagar.

Pancadaria Dinâmica e o “Caos” de Majima
A jogabilidade de Yakuza Kiwami herda o sistema sólido de Yakuza 0, mas aplica refinamentos que tornam a experiência ainda mais agressiva e técnica. Antes da transição da franquia para o RPG, este título representou o ápice do estilo beat’em up da Ryu Ga Gotoku, permitindo que Kiryu alterne em tempo real entre os estilos Brigão (equilibrado), Acelerado (veloz e focado em esquivas) e Bestial (lento, porém devastador e focado em objetos do cenário).
A grande evolução mecânica desta versão reside nas habilidades de troca rápida. Agora, Kiryu pode mudar de estilo instantaneamente ao realizar ações específicas, como uma provocação ou um finalizador de combo, eliminando qualquer quebra de ritmo e permitindo uma fluidez que torna as lutas verdadeiras coreografias brutais de rua.
O Sistema Majima Onipresente: Tutorial ou Tortura?
O ponto mais divisivo da jogabilidade de Yakuza Kiwami, é o sistema Majima Onipresente. Com o pretexto de ajudar Kiryu a recuperar suas habilidades após dez anos de cárcere, Goro Majima assume o papel de um mentor caótico. Ele pode surgir literalmente de qualquer lugar: saltando de bueiros, disfarçado de policial para uma revista surpresa, ou até escondido dentro de cones de trânsito gigantes. Embora a frequência dessas interrupções possa ser vista como maçante e inconveniente para alguns, ela é mecanicamente vital. O lendário estilo Dragão de Dojima tem sua evolução inteiramente vinculada a esse sistema. Sem enfrentar Majima repetidamente, Kiryu permanece limitado, tornando o “caos” de Majima uma tarefa obrigatória para quem deseja atingir o potencial máximo de combate.
Conteúdo Secundário
Além das lutas, a Kamurocho de Yakuza Kiwami pulsa com uma vasta lista de atividades que garantem um alto fator replay:
- Minigames e Nostalgia: O retorno das corridas de autorama (Pocket Circuit), campeonatos no coliseu, e os clássicos jogos de azar como Blackjack e Koi-Koi.
- MesuKing e Karaokê: A adição das bizarras batalhas de cartas de insetos e as músicas icônicas que exigem ritmo perfeito.
- Histórias Secundárias: Missões que variam do drama à comédia absurda, muitas servindo como ponte narrativa direta para os eventos de Kiwami 2.

Performance, Gráficos e a Lapidação Técnica no PS5
Se Yakuza Kiwami já era considerado um remake competente em 2016, a versão de PlayStation 5 lançada agora, em 2025, eleva o título ao seu potencial técnico definitivo. O jogo utiliza a mesma engine de Yakuza 0, mas recebeu um tratamento de polimento que justifica o salto geracional, transformando a exploração de Kamurocho em uma experiência muito mais imersiva e moderna.
Fidelidade Visual e Resolução
A melhoria mais imediata de Yakuza Kiwami é a resolução em 4K nativo, que traz uma nitidez impressionante para as texturas das roupas e para os icônicos letreiros de neon da cidade. Houve também uma correção de cores sutil, mas extremamente bem-vinda: os tons esverdeados, que eram uma marca registrada da iluminação original de 2016, foram reduzidos. O resultado é uma imagem mais limpa e vibrante, que destaca melhor as expressões faciais nas cutscenes cinematográficas.
Fluidez e Resposta dos Controles
No quesito desempenho,Yakuza Kiwami entrega 60 FPS estáveis, sem quedas perceptíveis mesmo em batalhas contra grandes grupos de inimigos ou em áreas densamente povoadas de Kamurocho. Essa estabilidade não é apenas estética; ela reflete diretamente na responsividade dos controles. Em atividades que exigem precisão milimétrica, como os desafios de ritmo do Karaokê ou as lutas intensas no Coliseu, o tempo de resposta mais baixo faz uma diferença nítida a favor desta nova versão.
O Poder do SSD e Modernização dos Sistemas
A integração com o SSD do PS5 resolve um dos maiores problemas de ritmo das versões anteriores de Yakuza Kiwami:
- Carregamentos Instantâneos: A transição entre o mapa aberto e o interior de lojas ou o início de combates é praticamente imediata.
- Sistema de Saves: A velocidade de salvamento foi otimizada e, finalmente, a franquia recebeu a adição do Auto-save. Agora, o jogo salva automaticamente após eventos importantes, eliminando o medo de perder progresso por bobeira.
Áudio, Localização e o “Pulo do Gato” do Upgrade
Um dos maiores trunfos desta versão para o público brasileiro é a localização impecável. Diferente do que vimos em Yakuza 0 Director’s Cut, a tradução para o português de Yakuza Kiwami é coesa, respeita os nomes dos estilos de combate e utiliza expressões naturais do nosso dia a dia, sem erros de contexto. Além disso, o pacote de áudio foi expandido, contando agora com a opção de dublagem em inglês e uma nova abertura com a música “Bleed”.
Contudo, nem tudo são flores na transição de gerações. É importante que o jogador esteja ciente de dois pontos cruciais:
- Upgrade Pago: Para quem já possui a versão de PlayStation 4, a atualização para o PS5 custa R$ 11,50 devido ao licenciamento das novas canções.
- Incompatibilidade de Saves: Infelizmente, não é possível transferir o seu progresso da versão de PS4 para a de PS5. Se você decidir fazer o upgrade, terá que trilhar o caminho do Dragão de Dojima do zero para aproveitar as melhorias técnicas.

Revisitar Yakuza Kiwami, agora totalmente em português e com o polimento do PlayStation 5, é uma experiência gratificante que reafirma por que esta obra é um dos pilares da indústria. O jogo consegue o feito raro de equilibrar a fidelidade à essência do clássico de 2005 com modernizações mecânicas que o mantêm atual e extremamente divertido mesmo dez anos após seu lançamento original.
Embora a história apresente pequenas quebras de ritmo e o sistema Majima Onipresente possa dividir opiniões, a jornada emocional de Kiryu e Haruka em Yakuza Kiwami permanece intrigante, dinâmica e emocionante. Seja você um veterano buscando reviver o início da lenda em 4K ou um novato vindo diretamente de Yakuza 0 Director’s Cut, nunca houve um momento tão propício para adentrar as ruas de Kamurocho e conhecer a saga do Dragão de Dojima.
Esse review de Yakuza Kiwamit foi produzido através de uma chave de review do game para PS5, gentilmente cedida pela SEGA
O Review
Yakuza Kiwami (PS5)
Um dos melhores remakes da história agora brilha no PS5 com performance técnica impecável e uma localização em português brasileiro de altíssimo nível. Embora a falta de cross-save e o sistema Majima Onipresente possam incomodar alguns, a jornada emocional de Kiryu e Haruka permanece como um pilar indispensável para qualquer fã de boas narrativas.
PRÓS
- A performance em 4K e 60 FPS
- Novas cenas focadas no desenvolvimento de Nishikiyama
- Localização impecável para o português brasileiro
- O sistema de combate permanece viciante
CONTRAS
- A ausência de transferência de save entre PS4 e PS5
- O sistema Majima Onipresente continua sendo uma mecânica divisiva
- O upgrade pago pode ser um ponto negativo






