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Resenha | Caixa de Pássaros

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Como bom fã de ficção cientifica e suspense, navegando aleatoriamente no catálogo da Netflix, fui imediatamente arrebatado pela sinopse de Bird Box, e após assistir ao excelente filme estrelado por Sandra Bullock, fiquei tomado por uma curiosidade que não saiu da minha cabeça por dias seguidos, até que, por acaso descobri que o roteiro do filme nada mais é do que a adaptação do livro de estreia do cantor e compositor americano Josh Malerman, até então desconhecido do meio literário.

Movido por essa curiosidade insana fui em busca do livro sem grandes expectativas, mas esperando encontrar algumas explicações que não são dadas na adaptação para a Netflix, e fui completamente surpreendido. Trata-se de um excelente livro, e ao final da leitura acabei ficando com o dobro de dúvidas e criando ainda mais teorias malucas a respeito dessas criaturas incompreensíveis que trouxeram a morte para bilhões de pessoas mundo a fora.

O livro tem como base uma premissa simples, porém ambiciosa. O nosso planeta foi “invadido” por uma raça alienígena cujas origens e intenções são completamente desconhecidas, e quando nos demos conta dessa invasão, já era tarde demais. Veja bem, não se trata de uma invasão alienígena típica, com espaçonaves, portais interdimensionais e coisas do tipo: é tudo muito mais sutil (não se sabe se quer se elas são alienígenas de fato, na falta de palavra melhor, sigo classificando-as dessa maneira) e o surgimento dessas criaturas é um mistério que se arrasta pelo livro inteiro.

Estes seres macabros são tão incompreensíveis para as capacidades de racionalização humana, que o simples ato de olhar para qualquer um deles faz com que a nossa mente entre em colapso, nos levando a cometer suicídio imediatamente. E é aqui o pilar fundamental do enredo, abrir os olhos pode te matar!

Todavia!!! a raça humana não alcançou o topo da cadeia alimentar deste planetinha insignificante por acaso, a nossa capacidade de adaptação em situações adversas é uma característica intimamente entranhada nos incompreensíveis limites dos nossos genes, e em algum momento é descoberto que a única maneira de sobreviver a essa nova ordem de coisas, é não abrir os olhos em ambientes abertos.

As pessoas que conseguem escapar das primeiras ondas de suicídio começam um lento processo de adaptação, protegendo-se em suas casas, onde isolam as janelas com tábuas, papelões, colchões ou qualquer coisa que as impeça de olhar para fora, e é aqui que o livro mostra a que veio. As interações e a construção das personagens toma o papel central da história, deixando as criaturas em um plano secundário, de onde são capazes de despertar os instintos de sobrevivência mais primitivos nos humanos afetados por sua constante vigilância.

O livro tem início com um grupo de pessoas dividindo uma espécie de casa que serve como albergue, onde um dos moradores prevendo o caos que se instalaria, fez um estoque de alimentos que poderia sustentá-los por meses. Grávida de poucas semanas, após presenciar um acontecimento trágico em sua casa, Malorie sai desesperada, seguindo um anúncio de jornal que acaba a levando até a residência do grupo, onde é aceita e rapidamente se adapta a rotina de tarefas diárias.

Caixa de Pássaros é um livro curto, onde Josh Malerman consegue imprimir uma narrativa fluida, simples e direta, que funciona muito bem para a história. Os capítulos são pequenos e estruturados em uma ordem que pode incomodar alguns leitores, pelo fato de começarmos a leitura com a jornada final de Malorie e seus filhos ao longo do rio, o que nos leva imediatamente a deduzir que alguma merda muito grande aconteceu com o grupo que a acolheu. Apesar de parecer um clichê incômodo, capaz de tirar parte do nosso interesse com relação à personagem principal, visto que temos a certeza que até os momentos finais do livro ela continuará viva, e logo de cara já podemos deduzir que os demais membros do seu grupo estarão mortos, acontece exatamente o contrário durante a leitura.

A narrativa empregada por Josh Malerman é simples, porém habilidosa, capaz de uma imersão tão densa e completa que sou capaz de afirmar que os momentos de tensão realmente me afetaram durante a leitura, alguns trechos são tão angustiantes e viscerais que compartilhamos os sentimentos e medos dos personagens, e não raro dei uma olhada na janela da sala para conferir se a cortina estava devidamente fechada…

Caixa de Pássaros se trata de um excelente livro, com uma excelente adaptação para a TV, cuja transição entre mídias é tão bem-feita que as diferenças entre um e outro são quase que imperceptíveis, e não têm relevância alguma para os rumos do enredo. Busquei o livro em busca de respostas, e sai de lá com mais dúvidas ainda, e uma sensação gostosa de ter em minhas mãos uma história inovadora e angustiante, que me deu uma ressaca literária que durou alguns dias.

Se você já viu o filme e quer mais, recomendo fortemente que releia o livro, e se você já leu o livro e quer mais, veja o filme!

Publicado em 15 de janeiro de 2019 às 21:46h.
2019-01-15 21:46:58